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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

REBOCADORES GÉMEOS “MONTE SÃO BRÁS” E “MONTE DO LEÇA”

O MONTE SÃO BRÁS à sua chegada ao porto de Leixões vindo da Belgica em 23/03/1970 / O Comércio do Porto /

O MONTE SÃO BRÁS no porto de Leixões em 1988 / foto de origem desconhecida transmitida amavelmente por Nuno Bartolomeu, de Almada /.

Os rebocadores MONTE SÃO BRÁS e MONTE XISTO ostentando as cores da Empresa Tinita, atracados ao cais comercial do porto de Viana do Castelo em 12/2009 / Rui Amaro /. 

O MONTE DO LEÇA demandando a barra da Figueira da Foz / a foto é de autoria do Sr. João Viana, a quem solicito autorização de a  mesma  continuar postada neste blogue, o que desde já muito agradeço /

23/03/1970 – Entrou no porto de Leixões, procedente da Bélgica, mais propriamente dos estaleiros Scheepswerven St. Pieter, Hemkisen, um novo rebocador de alto mar encomendado pela APDL – Administração dos Portos do Douro e Leixões, que tem o nome de MONTE SÃO BRÁS, o qual após as cerimónias inaugurais, passou a exercer as funções para que foi construído, assistência à navegação no porto do Douro/Leixões e em alto-mar, ainda esta semana, possivelmente.
Está prevista para a primeira quinzena do primeiro mês de Abril, a chegada de outro rebocador construído pelo mesmo estaleiro, precisamente com as mesmas características e que se denominará MONTE DO LEÇA.

MONTE SÃO BRÁS – imo 7014505/ cff34,50m/ boca 09,65m/ pontal 3,75m/ tb 296,31/ tl 84,90/ calado 14,5pés/ 2xpropulsores Voith Schneider 1.400hp cada/ 12nós/ 30 tons tracção/ 2 lemes/ 1 cabrestante/ 1 radar/ 1 sonda/ 1 VHF/ 2 canhões de água/ 2 lança-cabos; 20__ MONTE SÃO BRÁS, Tinita – Transportes e Reboques Marítimos SA. Viana do Castelo; 01/2014 continua a operar no porto de Viana do Castelo.
MONTE DO LEÇA – imo 7014517/ cff34,50m/ boca 09,65m/ pontal 3,75m/ tb 296,31/ tl 84,90/ calado 14,5pés/ 2xpropulsores Voith Schneider 1.400hp cada/ 12nós/ 30 tons tracção/ 2 lemes/ 1 cabrestante/ 1 radar/ 1 sonda/ 1 VHF/ 2 canhões de água/ 2 lança-cabos; 01/2014 continua no serviço activo, embora eventualmente preste serviço nos portos de Aveiro e Figueira da Foz.

Aquando dos naufrágios dos navios panamiano OWENDUV em 1972 e do cipriota TENORGA em 1978, e outras ocorrências graves, o certo é que um desses dois rebocadores gémeos saíram pelo porto de Leixões fora, não olhando ao perigo, debaixo de mar de quase autentico ciclone, enfrentando enormíssimas voltas de mar, infelizmente não foram bem sucedidos no encontro de sobreviventes, pois com o negro da noite, mesmo com os holofotes ligados, era-lhes difícil encontrar náufragos no meio daquele turbilhão de mar desfeito. No caso do TENORGA, diante do Castelo do Queijo, foi o mestre Mário que estava entre molhes num dos rebocadores pequenos para dar assistência ao desditoso navio, e quando deu fé que o navio se estava a afundar, foi de imediato pegar no MONTE DO LEÇA, e fez-se ao mar sem olhar ao perigo, confiando nas possibilidades, neste caso do seu rebocador de alto-mar.
Fontes: Imprensa diária; Miramar Ship Index, Nuno Bartolomeu, de Almada.
Rui Amaro

ATTENTION. If there is anyone who thinks they have “copyrights” of any images/photos posted on this blog, should contact me immediately, in order I remove them, but will be sadness. However I appeal for your comprehension and authorizing the continuation of the same on NAVIOS Á VISTA, which will be very much appreciated.
ATENÇÃO: Se houver alguém que se ache com direitos sobre as imagens postadas neste blogue, deve-o comunicar de imediato. a fim da(s) mesma(s) ser(em) retirada(s), o que será uma pena, contudo rogo a sua compreensão e autorização para a continuação da(s) mesma(s) em NAVIOS Á VISTA, o que muito se agradece.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

MAIS UMA TRAGÉDIA MARITIMA ENLUTA O MARTIRIZADO CENTRO PISCATÓRIO NORTENHO DAS CAXINAS, DESTA VEZ COM A MOTORA "JESUS DOS NAVEGANTES"


Autor João Viana, Figueira da Foz / ver nota no final do texto /

Nenhum dos oito homens da companha da embarcação de pesca que naufragou na tarde de sexta-feira, 25/10/2013, na sempre difícil barra da Figueira da Foz usava colete, situação essa, que o capitão do porto classificou de "incompreensível". Nenhum pescador usava colete, é uma situação que tem de ser vista. É incompreensível numa embarcação a sair a barra e naquelas condições de mar agitado, disse Rui Amado, capitão do Porto.
Presente na praia do Cabedelo, situada junto ao local do naufrágio e questionado sobre o assunto dos coletes salva-vidas, José Festas, da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, disse não conseguir perceber o que aconteceu.
"Não estou a dizer que não deviam usar colete salva-vidas, mas se o estivessem a usar, se calhar, com o barco a virar, teriam morrido mais tripulantes, porque com o colete envergado é muito difícil mergulhar", sublinhou.
José Festas aludiu ainda às condições de entrada e saída da barra da Figueira da Foz, após as obras de prolongamento do molhe norte, que lhe deram uma nova orientação (sul-sudoeste) e que obriga, de acordo com o comandante do porto, a uma "nova forma" de entrar e sair.
“A nova barra foi feita para os navios. Hoje, os barcos de pesca saem completamente de lado, com o vento e mar, a saída e entrada tem mais perigosidade", afirmou José Festas.
As buscas dos três desaparecidos da motora JESUS DOS NAVEGANTES foram retomadas ao início da manhã de sábado, para já, no mar, apenas com recurso à corveta NRP BAPTISTA DE ANDRADE  já que as condições adversas que se faziam sentir não permitiam a utilização do salva-vidas do ISN e outras embarcações da capitania do Porto da Figueira da Foz, adiantou.
A corveta, que começou a operar ao largo da Figueira da Foz ao nascer do dia, deslocou-se, entretanto, à zona do cabo Mondego - a norte do local do naufrágio - para recolher uma balsa que se presume pertencer à embarcação naufragada, indicou Rui Amado.
A barra do porto comercial que estava fechada a toda a navegação foi entretanto reaberta, embora condicionada a embarcações superiores a 35 metros, continuando por aferir o local exacto onde a motora JESUS DOS NAVEGANTES está localizada.
Rui Amado, capitão do porto, precisou que a embarcação naufragou "a 200 metros da barra, precisamente a sul", num local onde a profundidade é de "cerca de 15 a 20 metros", sustentou.
Desde a reabertura da barra, pelo menos três navios de carga já deixaram o porto da Figueira da Foz, tendo entrado um, constatou a Lusa no local.
O capitão do porto ouviu no último sábado os quatro tripulantes dos cinco que foram resgatados com vida, nomeadamente o mestre da embarcação, para apurar o que aconteceu na altura do naufrágio.
Um quinto tripulante, o ferido mais grave do naufrágio - um homem de 48 anos, de nome Luis Santos, que sofreu uma paragem cardio-respiratória e foi reanimado e estabilizado no hospital da Figueira da Foz, antes de ser transferido para os Hospitais da Universidade de Coimbra - estava, ao início da madrugada de sábado, com prognóstico muito reservado, informou aquela unidade de saúde.
Na praia do Cabedelo estava a decorrer a última prova do Circuito de Surf do Norte, mas a competição, segundo a autoridade marítima, não interfere com as buscas dos três pescadores desaparecidos.
Cinco camaradas foram resgatados com vida pelo salva-vidas do ISN, e havia três pescadores desaparecidos na sequência do naufrágio de sexta-feira na Figueira da Foz, contudo o corpo de um dos desaparecidos foi encontrado ao fim da manhã de sábado, e recolhido pelo helicóptero.
Um quinto tripulante, o ferido mais grave do naufrágio - um homem de 48 anos, de nome Luis Santos, que sofreu uma paragem cardio-respiratória e foi reanimado e estabilizado no hospital da Figueira da Foz, antes de ser transferido para os Hospitais da Universidade de Coimbra - estava, ao início da madrugada de sábado, com prognóstico muito reservado, informou aquela unidade de saúde. "Diria que tem uma esperança de 60% a 70% de se salvar", disse aos jornalistas Manuel Gameiro, diretor do Serviço de Urgência do Hospital Distrital da Figueira da Foz.
Já os restantes quatro resgatados - Francisco Fortunato, 40 anos, mestre e armador da embarcação naufragada, Eurico João, 26, Francisco Ferreira, 31, e António Reijão, 41 anos, que, segundo Manuel Gameiro, fazia anos no fatídico dia - estão bem e já têm alta clínica.
Estavam à espera dos familiares que vão chegar vindos do centro piscatório das Caxinas, o mais martirizado da costa Portuguesa, para os vir buscar", indicou o médico.
José Paiva, que estava a pescar num dos molhes interiores do rio, por volta das 17h15, disse que a embarcação esteve algum tempo a tentar sair a barra e que pouco depois viu a motora levantar-se no ar e desaparecer no mar. Três motoras preparavam-se para sair a barra e duas voltas de mar imprevistas bateram numa delas, a JESUS DO NAVEGANTES, e virou-a, disse também Mário Gomes, outro pescador no local.
Vários destroços da motora foram dando à costa, e curiosamente entre eles, a quilha, ou melhor o fundo, só por isto se entende que o embate foi fortíssimo.
Ao naufrágio acorreram os bombeiros, ISN e polícia marítima e seu material flutuante, GNR, INEM, Cruz Vermelha, etc.
O mestre José Festas e o capitão do porto da Figueira da Foz deram as “respostas certas” aos jornalistas, sobre uma das possiveis causas da tragédia da motora Poveira JESUS DOS NAVEGANTES, pois tal e qual como noutras barras, a barra da Figueira com o quebra-mar na direcção Sul-Sudoeste não será excepção, e como a ondulação na costa tem tendencia de noroeste, as motoras em ocasiões de mar de andaço, ficam a pairar dentro da barra, a aguardar um liso passageiro, e quando este se dá avançam a toda a força, algumas exitam e ficam-se pela barra, mas outras conseguem ultrapassar a rebentação, isto se forem de proa à vaga, caso das barras sem molhe bastante extenso, agora se têm um molhe bastante prolongado pela frente e deveras direccionado a Sul-Sudoeste, a manobra é mais complicada, nomeadamente pela falta de visibilidade da rebentação que se aproxima, pois têm de avançar de rumo a sul, ou seja de lado ou amura à rebentação, uns bons metros para lá do quebra-mar, e só nessa ocasião é que avançam de proa ao mar, isto significa que não se podem fazer ao mar, junto ao cabeço do molhe, é que com mar a crescer podem ser atiradas contra o molhe, por algum golpe de mar, e afundar-se, até mesmo embarcações de algum porte. Ora navegando de lado, e surgindo umas voltas de mar imprevistas, é fácil o naufrágio.
Quando do projecto dos molhes do Douro, que também tem o molhe norte direcionado a sudoeste, bati-me em crónicas nos jornais diários para que isso não viesse a ocorrer, já prevendo tragédias, como a agora ocorrida na Figueira da Foz, felizmente isso não tem sucedido por aqui, até porque a navegação, quer comercial, lúdica e pesqueira tem sido muito diminuta. Lembro-me de em finais da década de 50, ainda com a barra antiga, um navio, ter apanhado umas valentes voltas de mar de noroeste, e desgovernando para bombordo, para sul, e atravessado ao mar, galgou o banco da barra, e só perto de Lavadores é que conseguiu rodar para estibordo, e fazer-se ao largo.
No que respeita aos coletes salva-vidas, entendo que devem ser utilizados, mas pelo menos no cruzamento das barras, sobretudo em ocasiões de agitação marítima, e importante é a não utilização de botas de borracha altas, que enchendo de água, impossibilitam os seus utilizadores de nadar devido ao peso, e acabam por os fazer submergir. O meu pai que foi pescador desde os 13 anos de idade, e aos 25 piloto da barra do Douro/Leixões, quando na traineira cruzava as barras do Douro, Aveiro ou Figueira, barras em que correu sérios riscos de naufrágio, descalçava as botas e posicionava-se junto de uma bóia de salvamento, para o que desse e viesse, e num acidente numa traineira da Afurada, das maiores, de que era camarada, e demandava a barra do Douro com águas de vazante, aquela desgovernou e bateu de popa na pedra da Gamela, e partiu o cadaste e leme, lançando ferro de imediato, a tripulação que era de cerca de 30 homens, tratou de se recolher na chalandra, e vir para terra, mas ficaram a bordo o mestre, maquinista e o contra-mestre e mais dois camaradas, o meu pai e um outro da Afurada, que não sabia nadar. este muito aflito pedia ao meu pai que o salvasse, e atirando-se à água com uma bóia, trouxe-o a reboque agarrado a um dos pés, a distancia era curta, entre a Meia Laranja e o Cais Velho, infelizmente quando pôs os pés em terra, escorregou no limo e lá se foi, aparecendo o seu corpo passado 15 dias, precisamente na fatídica barra da Figueira da Foz.      
A 19 de Agosto pp, um camarada da motora JESUS DOS NAVEGANTES, agora naufragada, Carlos Manuel Milhazes Novo, caiu ao mar ao largo da Figueira da Foz, sem que ninguém desse por isso, e foi dado como desaparecido. O meu pai com 13 anos, moço de traineira, e um outro jovem moço, vinham na chalandra, a esgotar água, sob nortada, quando ao mar da Aguda, a bossa que ligava a chalandra à traineira rebentou, e como a companha estava a descansar nos beliches, e somente o mestre e o contra-mestre, este era seu pai e meu avô, vinham abrigados do vento na casa do leme e na condução da traineira, e só deram pela falta da chalandra, quando chegaram à barra do Douro, e de imediato retrocederam e foram em socorro dos moços e da chalandra, cujos remos estavam a bordo da traineira, que foram encontrados à deriva, já quase em cima da rebentação, ao mar de Espinho, e muito aflitos, pudera!
Fontes: Comunicação Social.
Rui Amaro

A FOTO É DA AUTORIA DO SR. JOÃO VIANA, QUE TEM OBTIDO EXCELENTES FOTOS DE EMBARCAÇÕES NO PORTO E BARRA DA FIGUEIRA DA FOZ, A QUEM SOLICITO AUTORIZAÇÃO DE A MESMA  CONTINUAR POSTADA NESTE BLOGUE

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terça-feira, 15 de outubro de 2013


O DRAMA DO PAQUETE INGLÊS “VERONESE”, FEZ ESTE ANO UM SÉCULO

Bandeira da Lamport & Holt Line

O VERONESE encalhado sobre as pedras do Lenho


O VERONESE em navegação / autor desconhecido - Photoship Co. UK /


As operações se salvamento dos náufragos

 
A lancha salva-vidas CEGO DO MAIO da Estação de Socorros a Náufragos da Povoa de Varzim, vendo à ré o patrão Lagoa


O paquete VAUBAN da Lamport & Holt Line, cruzando-se com uma escuna


Maqueta do naufrágio do VERONESE executada pelo meu saudoso colega de trabalho Joaquim da Silva Neves, que foi 2º comandante dos B. V. de Matosinhos-Leça 


Os patrões das lanchas salva-vidas CEGO DO MAIO e da RIO DOURO, respectivamente Manuel António Ferreira, "O Lagoa" e José Rabumba, "O Aveiro"


Imagem da inauguração da exposição comemorativa do 100 anos da tragédia do paquete VERONESE, que teve lugar na Associação Humanitária de Matosinhos e Leça da Palmeira

Desde 1852, quando se deu o naufrágio do vapor PORTO depois de demandar a barra do Douro, no qual pareceram cerca de duzentas pessoas, e da tragédia de 27 de Fevereiro de 1892, assim recordada, em que perderam a vida 105 humildes pescadores da Póvoa de Varzim e da Afurada, que não se registava, na costa marítima, de Portugal, um desastre que causasse tanta emoção como o naufrágio do VERONESE em 1913. Este paquete de linha Inglês, conduzia a bordo – segundo as melhores informações – duzentas vinte e uma pessoas entre passageiros e tripulantes.
O naufrágio deu-se às 4 horas da madrugada de 16 de Janeiro de 1913, ou seja há 100 anos. O vapor que fazia a aproximação ao porto de Leixões com chuva e como tal alguma neblina, embateu na pedra denominada “Lenho”, vindo a encalhar sobre a penedia, a pouca distância a norte da capela da Boa Nova, em Leça da Palmeira. A noite era de temporal desfeito, o mar rugia, embravecido, e, as ondas, altas como torres, cobriam o horizonte e galgavam os molhes do porto de Leixões, desfazendo-se em espuma nos areais próximos.
Note-se que à época não existiam os dois faróis de sinalização da costa no lugar da Boa Nova, tendo mais tarde havido outros dois naufrágios nas imediações, dos vapores BOGOR e SILURIAN, tendo, do primeiro parecido 33 tripulantes dos 38 do seu lotameto. As únicas luzes de referência para os mareantes, que então existiam eram o farol da Sra. da Luz, e os farolins da barra do Douro e dos molhes de Leixões.
Durante três dias, centenas de pessoas, indiferentes ao frio e à chuva, mantiveram-se no local do naufrágio, colaborando com os bombeiros e pessoal do Instituto de Socorros a Náufragos. Foi heróico o esforço despendido, evidenciando-se as guarnições das lanchas salva-vidas CEGO DO MAIO, esta trazida de comboio, propositadamente da Póvoa de Varzim, a titulo gratuito, sob o comando do patrão Manuel António Ferreira, “O Lagoa”, e a RIO DOURO, de Leixões, capitaneada pelo patrão José Rabumba, “O Aveiro”, dois verdadeiros “Lobos do Mar”, que salvaram, respectivamente 50 e 52 vidas, apoiadas pelo rebocador TRITÃO da Junta Autónoma das Instalações Marítimas dos Portos do Douro e Leixões.
Por cabo de vaivém, lançado a 350 metros, vieram para terra em 52 horas de trabalho constante 92 náufragos, tendo-se destacado, pela sua dedicação e saber, a corporação dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça sob o comando do sr. coronel Laura Moreira, bem como alguns elementos da Cruz Vermelha Portuguesa e dos Bombeiros Voluntários do Porto, Viana do Castelo e Vila do Conde. Entre quase centena e meia de pessoas condecoradas pelos serviços prestados aos náufragos do VERONESE, contava-se o Sr. Dr. Manuel Monterroso, por ter sido o primeiro clínico a chegar a desempenhar as suas funções que estabeleceram na Capelinha da Boa Nova e no posto fiscal.
Da Estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro, seguiu a carreta com material de socorros a náufragos puxada por força humana voluntária, e meu pai com 13 anos de idade, já moço de traineira e das embarcações dos pilotos, e admitido a piloto da barra em 1926, lá seguiu também a dar o seu contributo a empurrar a carreta até ao lugar da tragédia, só que se perdeu do restante pessoal, e por lá andou cerca de três dias, quase sem dormir, esfomeado e encharcado, até que tomou o rumo de casa a pé, na Cantareira, e à sua espera estava o pai, pescador, que não era para brincadeiras, que fora a Leça à procura dele, sem que o encontrasse, pregando-lhe umas valentes cinturadas que nunca mais as esqueceu.
José Pinto d’Almeida, “Pantaleão”, piloto da barra do Douro e Leixões, que se reformou como piloto-mor por volta de 1929, exímio no lançamento do foguetão, e sempre pronto, acorrendo a qualquer naufrágio na barra e na costa, tendo salvado muitos náufragos, mesmo como piloto-mor, e segundo consta também acorreu ao lugar do naufrágio do VERONESE para orientar o lançamento de foguetões para estabelecimento do cabo de vaivém para resgate dos naufragados, tendo a sua participação sido muita activa e meritória. O pessoal da estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro lançou 10 foguetões, e os Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça lançaram 18.
O Paquete de carreira VERONESE procedia de Liverpool, seu porto de registo, com carga geral e 20 passageiros, tendo escalado Vigo, onde embarcara 122 emigrantes, aparentemente destinados ao Brasil, Uruguai e Argentina.
Alguns navios que navegavam ao largo da costa, ao receberem o pedido de socorro do VERONESE, aproximaram-se do local da tragédia, mas nada podendo fazer seguiram o seu rumo, dentre deles o paquete VAUBAN, do mesmo armador do VERONESE, se bem que de maior porte.
As operações de salvamento duraram mais de 48 horas devido ao estado do mar. Houve 38 vitimas, das quais 5 elementos da tripulação.
Realmente os trabalhos de salvamento não deixaram nada a desejar, representando um esforço enorme. Basta dizer-se que, tendo sido salvas 89 pessoas, foi necessário puxar a braço 178 vezes o cabo de vaivém, portador da bóia calção, que tinha 300 metros de comprido.
A 16, cerca da 1 hora da tarde, chegava diante do naufrágio, vindo de Lisboa o rebocador salvádego da armada Nacional NRP BERRIO, que trazia a bordo material próprio para salvamento de náufragos, mal chegou tentou aproximar-se do VERONESE, mas teve de desistir, em vista da forte agitação marítima, pelo que se foi abrigar no porto de Leixões, ficando a aguardar o momento oportuno de poder prestar o seu auxílio.
No dia 24, como o mar estivesse mais calmo, foram feitas as primeiras tentativas de ida a bordo. Trabalho que se realizou com êxito. Assim pouco depois das 10 horas da manhã, seguiram desta cidade para Leixões Mr. Dawson, director da agência Garland, Laidley & amp; Co., Ltd., que há dias chegara de Lisboa, e Mr. Garland, director na cidade do Porto da mesma agência consignatária do VERONESE, e curiosamente perto do local do naufrágio, junto à praia de Leça, residia Mr. George Fimister, um Escocês, de Aberdeen, também um dos directores da agência Garland, Laidley & Co., Ltd., da praça do Porto.  
O trajecto foi feito em automóvel da firma, e uma vez ali chegados, reuniram-se-lhes o Capt. Charles Turner, comandante do paquete e outros oficiais do navio, embarcando todos em seguida a uma conferencia havida com a autoridade marítima de Leixões, numa embarcação rebocada pela lancha gasolina HERMES, propriedade da dita agência, que largou do porto de serviço, cerca de uma hora depois, em direcção ao vapor naufragado.
No mesmo barco seguiram 6 estivadores e o seu mestre Eduardo de Oliveira. Ao chegarem perto do paquete, foram tomadas providencias, a fim de evitar qualquer desastre e, depois de varias evoluções, foi levada a cabo com todo êxito a abordagem, entrando no VERONESE todas as pessoas mencionadas e ali se conservando durante bastante tempo, aproveitando-o em percorrer todas as dependências do paquete, que haviam sido poupadas pelo mar, e retirando grande numero de aprestos náuticos, roupas e alguns haveres dos tripulantes, vários apetrechos de bordo, livros de escrituração e ainda alguns valores que se encontravam nas cabines de 1ª classe do lado de bombordo, o que tudo foi trazido para Leixões, onde chegaram pela 4 horas da tarde.
No porão do navio apareceram três cadáveres, de dois homens e de uma mulher, colocados de horrorosa maneira. A mulher, seminua, com as mãos crispadas, estava entalada entre os ferros dos beliches de 3ª classe, no meio de uma avalanche de enxergas, malas e caixas. Os homens, esfarrapados também entre bagagens, tinha nos rostos contorcidos a nota de quanto foi terrível a sua agonia. Vinte e cinco trabalhadores andaram retirando alguns salvados para bordo da lancha-motor HERMES, aparecendo abertas algumas malas, que talvez os seus proprietários, no meio da sua angústia, tivessem arrombado para lhes retirarem os valores portáteis, na esperança de salvamento.
Também se retiraram de bordo as malas do correio que se destinavam a Buenos Aires. Montevideu e Rosário e o vapor salvádego CAP FINISTERRE entrara em Leixões, a fim de tentar os seus trabalhos no resgate do VERONESE.
No dia seguinte os estivadores voltaram ao navio, num barco rebocado pela lancha gasolina PATRIA, da firma Baptista & Cia-, a fim de retirarem para terra mais material, e trouxeram os três cadáveres que até então não fora possível retirar de bordo, tendo os mesmos sido removidos para o cemitério da Agramonte, na cidade do Porto.
Dois escaleres do navio naufragado também se salvaram.
Para Lisboa partindo da estação de São Bento, foram 77 náufragos do VERONESE, na sua maioria tripulantes, onde embarcaram no paquete AVON, da Royal Mail Lines, Londres, com destino a Inglaterra, mostrando-se todos muito reconhecidos, nomeadamente o capt. Charles Turner, pela forma carinhosa porque foram tratados, tanto pelo povo como pelas autoridades.
Mais tarde 130 passageiros embarcaram para o Brasil no paquete DARRO, da Royal Mail Lines, e os restantes foram para diferentes portos, embarcando nos navios SALAMANCA e ORITA, ambos da Pacific Steam Navigation, Londres.
Continuou sempre uma grande romaria à praia da Boa Nova a ver o barco que, ao largo, recebia sempre o embate das ondas alterosas, que o atacavam violentamente naqueles dias de temporal, que nas nossas costas tanto se fazia sentir, sendo por vezes, de grande violência.
O naufrágio do VERONESE continuaria por muito tempo a alancear os espíritos.
A catástrofe deixou o seu rastro de terror, a sua tremenda impressão, que não se apagaria tão cedo. Os temporais que sobrevieram não deixaram prosseguir com maior intensidade os trabalhos de salvamento iniciados bravamente em relação aos náufragos e prosseguindo do mesmo modo ao tratar-se dos objectos, alguns bem valiosos, que vinham a bordo.
O comissário do navio ficou em Portugal para fazer um arrolamento de todos os objectos que apareceram, tendo tomado conta, entre outros, de vinte preciosas malas pertencentes ao sr. Turnubull, que ia para Buenos Aires, onde é estabelecido, e as quais foram remetidas ao seu dono pelo paquete ANSELM, da Booth Line, para Liverpool, onde se recolheu durante algum tempo com a sua família.
Durante alguns dias as ondas foram tão violentas que não permitiram a continuação dos trabalhos. Houve porém, um dia, em que o comandante foi a bordo do VERONESE percorrer cuidadosamente os compartimentos onde a água ainda o deixava chegar. O bravo marinheiro pôs nessa tarefa um cuidado e um carinho estranhos, como se custasse muito a apartar-se da carcaça do seu pobre navio naufragado.
Ao penetrar na popa do navio o capitão encontrou ainda mais dois cadáveres e, ao chegar a terra, disse-o, na ansiedade de os remover para o cemitério, mas debalde isso se tentou porque a água tinha tudo invadido.
Uma família Inglesa que perdeu dois filhos no naufrágio prometia um prémio de quinhentas libras a quem encontrasse os corpos dos pequenitos que, segundo desejavam os seus inconsoláveis progenitores, iriam repousar em Inglaterra em lugar bem perto dos que tanto os amaram.
Quem sabe se não seriam as duas infortunadas crianças que o comandante do VERONESE viu e em cujos cadáveres não foi possível tocar. O mar continuava a arrojar à praia muitos destroços, que eram recolhidos pela guarda-fiscal.
O Instituto de Socorros a Náufragos recebia inúmeras felicitações pela forma porque se realizaram os salvamentos, como se sabe, foram levados a cabo com uma energia e uma bravura singulares que mais uma vez os nossos bravos marinheiros souberam mostrar na afirmação do seu valor.
Havia mais nomes a inscrever nesse “livro” de bravura e honra que já é a epopeia dos marítimos Portugueses, desses denodados tripulantes voluntários das lanchas salva-vidas, que arriscaram a vida para poupar a dos seus semelhantes com uma singular e grandiosa abnegação, que chegou ao seu sublime.
Os agentes no Porto da armadora Lamport & Holt Line, receberam do sr. Governador civil o seguinte ofício:

«Exmos. Snrs. Garland, Laidley & Co., Ltd. – Tendo o governo da Republica conhecimento do naufrágio ocorrido ontem na praia da Boa Nova, do vapor VERONESE, pertencente à Companhia Lamport & Holt  Line, de que V.Exas são representantes nesta cidade, incumbe-me de dizer-lhes que sente profundamente este lamentável desastre, que muito comoveu, no que eu o acompanho, significando também a V.Exas que continuarei a empregar todos os esforços a meu alcance para que seja quanto possível minorada tão grande desgraça. Saúde e fraternidade. – O governador civil, (a) Albano de Magalhães.»

A resposta foi a seguinte:

«Cumpre-nos agradecer muito reconhecidos os ofício de V.Exa. datado de 17 do corrente. e pedimos que V.Exa. transmita ao governo da Republica o nosso reconhecimento, pelo sentimento tomado de tão grande desgraça, ocorrida pelo encalhe do vapor VERONESE, e pelas ordens dadas à sua marinha, a fim de prestar com o rebocador NRP BÉRRIO, vindo expressamente de Lisboa, os seus valiosíssimos serviços de salvamento, bem como às suas autoridades marítimas de Leixões.
Os esforços que V.Exa. nos tem dignado prestar com as suas ordens, são dignos do nosso maior apreço, esperando sempre de V.Exa. a continuação da sua atenção para esta horrorosa desgraça, e é com o maior agradecimento e máxima consideração que nos firmamos de V.Exa., atts. vens. e obrigados. (a) Garland, Laidley & Co., Ltd.»

Eu, que ingressei na firma Garland, Laidley & Co., Ltd, sedeada na rua do Infante D. Henrique, 131, da cidade do Porto, no início dos anos 60, recordo-me de funcionários daquele tempo, já meus superiores, terem dito, que na ocasião foram para o local do naufrágio, a fim de prestarem assistência aos náufragos, e acabaram também por prestar ajuda aos bombeiros e pessoal dos Socorros a Náufragos, na alagem do cabo de vaivém.
O comandante do VERONESE questionado pelos jornalistas acerca das causas do encalhe, respondeu-lhes que estava impedido de se pronunciar sobre o assunto, porque desde que pôs os pés em terra considerava-se prisioneiro do embaixador Inglês em Portugal.  
O tribunal (Board of Court) considerou o capt. Charles Turnbull, comandante do VERONESE, culpado pelo acidente, pelo que o seu certificado de capitão foi suspenso por seis meses, baixando para o posto de imediato durante esse período. O imediato foi ilibado porque na ocasião do encalhe não estava de quarto.
O comandante após as seis horas, que o navio levava de Vigo a Leixões tentou vislumbrar as luzes dos farolins da barra do Douro e dos molhes de Leixões, e certamente o farol da Sra. da Luz, só que não conseguiu devido á chuva e à neblina, tendo ido parar ao local do encalhe.

VERONESE – imo 1120912/ 146,7m/ 7.089tab/ 1 hélice/ 458nhp/ 12 nós/ acomodação para 642 pessoas, entre tripulação e passageiros; 01/1906 entregue por Workman Clark & Co., Ltd,. Belfast, à Liverpool, Brazil & River Plate Steam Navigation Co., Ltd, gestores Lamport & Holt Line, Liverpool; Durante a estadia em Liverpool foi-lhe instalada uma nova ponte de comando.
As cores da chaminé dos navios da companhia de navegação Lamport & Holt Line, e das suas subsidiárias era azul, faixa branca larga e topo preto; casco preto com uma lista branca junto à linha de água de vermelho, e superstruturas pintadas de branco.  
Navios gémeos: VELASQUEZ, também teve a mesma sorte do VERONESE, pois já havia naufragado devido ao mau tempo e névoa na Ponta da Sela, Ilhabela, Brasil, em 16/10/1908, quando em rota de Buenos Aires para Nova Iorque, 137 pessoas, entre tripulantes e passageiros, foram salvos por cabo de vaivém; VERDI, torpedeado e afundado em 22/08/1914 pelo submarino Alemão U53, quando em viagem de Nova Iorque para Liverpool, pereceram apenas 6 tripulantes.

Segundo consta neste naufrágio foi realizado primeiro filme Português.            
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior, Imprensa diária do Porto, Mundo Ilustrado, Internet, Miramar Ship Index.
Imagens de autores desconhecidos e de Joaquim Pinto da Silva.
Rui Amaro                                                                                                                                                                                                                               
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A ODISSEIA DOS SEIS PESCADORES DA MOTORA "VIRGEM DO SAMEIRO"
 

Portugal e certamente também o mundo jamais deixaram de estar atentos às noticias da comunicação social acerca do desaparecimento da motora VIRGEM DO SAMEIRO, cujos pescadores mostraram ser gente de fé, e na Graça de Deus já estão em terra firme junto dos seus familiares, e todos eles não ganharam para o susto, e há que felicitá-los pela sua coragem,  e a toda instituição e pessoal interveniente nas buscas e resgate, sobretudo os militares do helicóptero salvador, não esquecendo a Marinha de Guerra, Força Aérea, ISN, INEM, Hospital de Leiria, etc.


Em minha opinião o helicóptero é um dos mais importantes inventos a nível mundial, pois faz parte das dez mais importantes invenções do século XX, tendo sido desenvolvido e aperfeiçoado no final da 2ª Guerra Mundial, e apesar de inicio ter sido vocacionado para teatros de guerra nas suas várias vertentes, desde há muitos anos, dentre outras funções de grande valia, tornou-se também num meio aéreo de transporte de feridos e doentes para os hospitais e de resgate de náufragos e de pessoas em dificuldade em terra, nomeadamente em terrenos de difícil acesso, e pena foi não ter existido desde há muitos mais anos, pois os náufragos do vapor de carreira Português PORTO (1852) e dos vapores Alemães CINTRA (1909) e DEISTER (1929), no rio e barra do Douro, e ainda do paquete Inglês VERONESE (1913), na praia de Leça da Palmeira, teriam sido todos eles resgatados.


 
Operações de salvamento dos passageiros e tripulantes do paquete VERONESE junto da Boa Nova, praia de Leça da Palmeira, em 1913 / Imprensa diária /.

Também o Sistema de Sinalização por GPS, que permite a localização imediata das embarcações em dificuldades, denominado Rádio Baliza tem de ser considerado um dos grandes inventos do século XX, e todas as embarcações não deveriam deixar de o possuir, pois será mais fácil localizar a embarcação ou os náufragos em dificuldade, e poupar-se-ia em gastos com navios de guerra, lanchas salva-vidas, aeronaves, etc., sempre presentes nestas ocorrências.
Em 16/02/1963, cerca da meia-noite, no cabeço da barra do Douro, devido ao mau tempo e pouca visibilidade originada pelos intensos aguaceiros, encalhou o vapor Liberiano SILVER VALLEY, que se destinava ao porto de Leixões, e que acabou por alquebrar, e como, mesmo de dia claro, as embarcações de socorro não se atreviam à acostagem devido à forte agitação marítima, e os foguetões lançados pelos bombeiros não conseguiam alcançar o castelo da proa do SILVER VALLEY, onde se tinham refugiado os naufragados, o capitão do porto teve a feliz ideia de solicitar a vinda de dois helicópteros "Allouete" da Força Aérea Francesa, que por um feliz acaso estavam na base do Montijo, a servir para treino dos futuros pilotos Portugueses, sob instrução de pilotos Franceses, e o milagre deu-se, pois em quarenta minutos, num vaivém coordenado, os 27 tripulantes de nacionalidade Grega estavam a salvo na praia das Pastoras, depois de uma madrugada, manhã e parte da tarde, aflitiva, que mais lhes deve ter parecido uma eternidade, e à chegada muitos deles beijavam as areias da praia. Esta operação de resgate aéreo, foi a primeira na costa continental Portuguesa, e uma das primeiras a nível mundial, tal e qual o resgate duma grande parte dos passageiros e tripulantes do navio ARNEL, naufragado na costa da Ilha de Santa Maria, nos Açores, em 19/09/1959.

 
 
A imagem mostra um dos helicópteros assentando os patins do seu trem na amurada de proa do SILVER VALLEY e os náufragos, dois a dois, iam subindo directamente para bordo, alcançando terra firme em 15 viagens. /(c) imagem de noticia de O Primeiro de Janeiro de 17-03-1963 /.

Ainda me lembro da tragédia do 2 de Dezembro de 1947, na qual pereceram 152 desventurados pescadores das traineiras SÃO SALVADOR, D. MANUEL, MARIA MIGUEL e ROSA FAUSTINO, e deixou 71 viúvas e na orfandade 100 crianças, que ocorrera entre a Aguda e os Molhes de Leixões, e que precisamente na madrugada da passada sexta-feira (dia 2), altura em que os pescadores da VIRGEM DO SAMEIRO, ainda não tinham sido encontrados e resgatados, passavam-se 64 anos, e que o meu amigo Carlos Miranda Ferreirinha, de Lordelo do Ouro, camarada da S. JOSÉ 5º, há poucos dias, juntamente com mais dois camaradas intervenientes naquela horrenda tragédia, participaram no programa da SIC intitulado "Sobreviventes", relatando a situação aflitiva porque passaram, se bem que nesse naufrágio, com a borrasca e mar que se fazia sentir, não haveria helicóptero que se aventurasse, e agora quase que na mesma data ia acontecendo uma nova fatalidade marítima para a constante martirizada Caxinas, que nem poupada é com mortes de pescadores no asfalto, como ocorreu há uns tempos no Alto Minho.
 
O casco destroçado da traineira D. MANUEL varada no cabedelo da barra do Douro em 02/12/1947 / Imprensa diária /.

Eu sempre estive confiado que os náufragos fossem encontrados, porque não apareciam vestígios da embarcação, poderia ter sido abalroada por qualquer navio, que não se tivesse apercebido, não seria a primeira vez, ou apanhada por uma volta de mar mais alterosa, que a fizesse submergir com o pessoal quase todo a descansar, mas também poderia por qualquer motivo não ter sido detectada, apesar dos "very lights" lançados, até porque a balsa não era de grandes dimensões. Hoje em dia toda a gente utiliza telemóvel, e os mareantes não são excepção, até os capitães dos navios mercantes, apesar de existir interdição, praticamente valem-se do telemóvel para comunicar com os seus agentes consignatários em vez do característico radiotelefone/VHF, à aproximação aos portos de destino, só que com a pressa de saltarem para a balsa salva-vidas, os telemóveis devem ter ficado a bordo, se bem que há distância que se encontravam não conseguiriam rede.
As causas da perda da motora VIRGEM DO SAMEIRO, segundo relato do mestre não é conhecida, apenas diz que a embarcação começou por adornar a estibordo, e num ápice a casa da máquina e a habitabilidade estavam inundadas, sem a mínima hipótese de esgotamento, acabando por submergir. Usualmente estas situações ocorrem devido a bater em corpo flutuante estranho ou a qualquer pancada mais forte na vaga, muito usual quando a navegação é feita com vaga forte de proa, caso das nortadas.
Na década de 70 ou 80, se não estou em erro, no escritório de navegação onde eu trabalhava, a um fim de semana, eu tinha o aparelho VHF em escuta, quando ás tantas ouço uma chamada em tom muito ténue, e um pouco imperceptível, que parecia ser de aparelho da banda do cidadão, em que o mestre pedia auxilio iminente, porque a sua motora se estava afundar e os meios de salvamento eram poucos, ainda tentei comunicar com eles para me darem a sua posição, mas nada, e sem perda de tempo telefonei para a capitania, e disseram-me que outras embarcações já iam em socorro, só que ainda estavam muito longe. Já não me recordo se a motora era da Povoa de Varzim ou de Leixões, só sei que as outras motoras, quando chegaram à posição indicada, nada encontraram, talvez por dados desacertados, e lá foram mais uns tantos infelizes e enlutado o centro piscatório a que pertenciam.
Tenho lido muitos relatos de situações desesperadas de tripulações de navios Aliados e de neutrais, mesmo de Portugueses, que foram torpedeados e afundados pelos famigerados submarinos Nazis, na 1ª e 2ª Guerras Mundiais, e que andaram nas baleeiras salva-vidas ou jangadas dias e dias à deriva em pleno oceano até serem avistados por aeronaves ou encontrados por outros navios, ou ainda vararem em qualquer praia. Uns conseguiram sobreviver exaustos e em estado deplorável, outros enlouqueciam ou finavam, e tiveram por sepultura, o fundo dos oceanos. 
E, dentre muitos, houve o caso do lugre-motor bacalhoeiro Português MARIA DA GLORIA, a 06/06/1942 nos pesqueiros dos Grandes Bancos, em que de 44 homens recolhidos em 22 doris sem um mínimo de habitabilidade e conforto, porque eram embarcações próprias para a pesca manuseadas unicamente por um pescador, apenas se salvaram 8, dentre eles o seu capitão, os restantes jamais foram encontrados, e em tempo de paz, houve o caso do navio-motor bacalhoeiro Português JOÃO COSTA, naufragado a 23/09/1952 a 60 milhas da Ilha de S. Miguel, em que toda a companha de 74 homens concentrados em 22 doris foram recolhidas por 3 navios mercantes que tiveram grande dificuldade em os encontrar devido às suas reduzidas dimensões, pois passaram por uma odisseia de cerca de 7 dias sem avistar o quer que fosse.
Boas marés e melhor sorte para os mareantes e profissionais das artes de pesca, particularmente para os das Caxinas, que deram provas de grande heroicidade e fé religiosa, apesar da desgraça estar sempre por perto.
Desta vez tudo correu bem, mas nem sempre assim acontece!
Fontes: Comunicação social, Sea Breezes, WW2 magazines.
Rui Amaro

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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A OBRA DOS MOLHES DO DOURO ARRECADA PRÉMIO SECIL DE ENGENHARIA CIVIL





No dia 9 de se Setembro pp., realizou-se a cerimónia de entrega do “Prémio SECIL de Engenharia Civil 2009”, que pela primeira vez na sua história, foi atribuído a uma obra portuária – os molhes da barra do Douro.

A inauguração de uma placa alusiva à efeméride, colocada no molhe Norte, contou com a presença do ministro das Obras Públicas, António Augusto de Ascensão Mendonça, e de Fernando Silveira Ramos, o engenheiro autor do projecto.


Na cerimónia, em que estiveram ainda presentes os concessionários do futuro restaurante/esplanada (já em fase de instalação), Manuel Tavares de Pina e Cerqueira Gomes, e o presidente da APDL (Administração Portuária), Matos Fernandes, o qual destacou a importância que o espaço lúdico vai ter no processo de inserção e integração urbana dos molhes da nova barra do Douro.



Matos Fernandes aproveitou também para assegurar que estão criadas todas as condições de segurança necessárias para que o seu funcionamento se inicie já este ano.

Pena é, agora que temos uma barra com um mínimo de segurança – poderia ter ficado um pouco melhor, particularmente em condições de algum mar ou correntes de águas na barra – não se tenha aproveitado ou reservado o estuário do Douro, nomeadamente na sua margem esquerda para tráfegos marítimos que futuramente possam vir a surgir. Valha-nos, pelo menos, a autarquia Gaiense, que em boa hora projectou, o que parece vir a ser uma excelente marina e já lançou a primeira pedra, no lugar de São Paio da Afurada, uma boa localização até para situações de cheia no rio, que irá chamar à barra do Douro, um razoável número de iates de recreio, que hoje em dia passam ao largo, procurando portos com melhores condições de escala para a navegação de recreio, e que jamais existiu no porto fluvial do Porto, se bem que em minha opinião, deveria levar um cais acostável para iates ou unidades navais de algum porte, uma vez que os actuais cais, normalmente estão ocupados com tonelagem fluvial-turística.


Já em 1987 houve um projecto similar para uma potencial marina que acolheria cerca de 2.000 embarcações, provida de todas as infra-estruturas necessárias a um bom atendimento, para a então desaproveitada margem esquerda do estuário do Douro, mais propriamente entre Lavadores, Alumiara e São Paio da Afurada, que consistia na marina propriamente dita a Oeste e um cais exterior para embarcações de maior porte, incluindo unidades navais, e uma vasta doca reservada às embarcações de pesca do centro piscatório da Afurada a Leste, com os respectivos meios e edifícios de apoio, e na área então a ocupar, já era um razoável "habitat de passarinhos”, o qual não se incomodava, mesmo nada com o impacto humano do vasto areal do Cabedelo.



Os dois molhes da nova barra do Douro, vieram dar uma boa protecção ás margens estuarinas, e ainda uma melhor segurança de navegabilidade aos seus mareantes, sobretudo aos pescadores da Afurada e da Cantareira, e pena é que a navegação fluvial-marítima em transito para os cais de Sardoura e Várzea do Douro, já bastante razoável, vocacionada para o tráfego dos granitos, não tenha sido acompanhada pelo de outras mercadorias, mas é compreensível, porque as vias rodoviárias de acesso àquela região não são nenhuma maravilha, e as férreas são quase que inexistentes.

Agora que a galeria de acesso ao farol da barra e o espaço destinado à restauração, olhando ao local onde está instalado, que é um autentico fosso, certamente irá sofrer elevados estragos, em dia de borrasca. Ah isso vai mesmo! Aliás não será novidade, pois como é sabido, ainda este ano assim ocorreu. Em minha opinião e de muitos Fozeiros, aquele espaço de restauração deveria ser edificado, e tornar-se-ia muito mais aprazível no piso superior, ou seja na área ajardinada, totalmente abrigada das investidas da forte agitação marítima, muito frequentes na época invernosa.

http://naviosavista.blogspot.com/search?q=molhes+do+douro

Fontes e imagens: Jornal de Noticias / Viva / O Comércio do Porto.

Rui Amaro