
As manobras preliminares, muito complexas, iniciaram-se cerca das 09h00, tendo sido colocados prontos a ladear o PORTO, logo que este saísse da doca seca, os rebocadores MONTE CRASTO e SERRA DE PORTALEGRE; o rebocador PRAIA DA ADRAGA, potente embarcação que arrancou o navio para o anteporto, a fim de cruzar a barra, surgiu cerca das 13h20 vindo da doca comercial. Eram precisamente 13h45, quando o grosso cabo de reboque foi estabelecido à proa do PORTO. De bordo o comandante Teixeira Bastos trocava com o cabo-piloto Agostinho Vieira as ultimas ordens de manobra, e eram justamente 13h48, quando aquele pratico da barra fez sinal de que ia arrancar. Nesse momento, a bordo do PORTO era içada a bandeira da Companhia Colonial de Navegação, para a primeira viagem do grande e elegante navio mercante. Aqueles milhares de curiosos seguiam com certa ansiedade a transposição da barra, efectivamente uma manobra que requeria a máxima atenção e muito cuidado. Mas aí as coisas se processaram com tanta simplicidade, tudo decorreu de um modo tão normal, sob a orientação responsável do experimentado prático Agostinho Vieira, que imensa gente, não se apercebeu do caso.
Minutos passados o navio PORTO estava fora das zonas de grande perigo, a primeira era a passagem do barco entre o molhe do Bugio, do Fortim e do Cabedelo; aí indo o barco muito leve, em lastro, e oferecendo um enorme gosto ao vento, poderia haver o perigo de tomar conta dele e lançá-lo para qualquer dos lados, ambos muito próximos, mormente o cais do Bugio, onde o navio passou à distancia de cinquenta metros – o facto de ter sido escolhida uma altura em que não soprava vento, arredou esse perigo; logo a seguir, porém, havia que ser transposto o perigosíssimo Baixio da Tornada, local de bastante assoreamento da barra – as dragagens realizadas com a antecedência devida afastaram ao máximo possível esse novo perigo; havia também a passagem entre o Penedo Ladrão e a Laje do Ladrão e ainda o Roncador, grandes massas rochosas que ladeavam o canal da barra. Ai, novamente a perícia do cabo-piloto Agostinho Vieira e talvez de um outro seu subalterno, conseguiu que tudo corresse pelo melhor.
O PORTO ante sinais de alívio e descontracção por parte daqueles que conheciam a série de perigos, rumou ao sul para Lisboa, onde iriam ser realizados os acabamentos finais, e passado uma hora e meia desaparecia na linha do horizonte. O maior perigo naquela manobra estava no facto do PORTO possuir uma enorme envergadura, vazio como ia, oferecendo um obstáculo monstro a qualquer rajada mais forte de vento que surgisse. Nada sucedeu, e felizmente tudo se consumou com felicidade.
Sem dúvida nenhuma, que aqueles, milhares de Vianenses acabavam de assistir a um acontecimento histórico na vida do velho burgo de mareantes.
O rebocador de alto mar PRAIA DA ADRAGA, da Sociedade Geral, e o SERRA DE PORTALEGRE, da AGPL, vieram, propositadamente de Lisboa e o MONTE CRASTO, da APDL viera de Leixões, a fim de prestarem a necessária assistência ao novo navio.
A 05/04/1968, a fim de iniciar a sua viagem inaugural aos portos Portugueses das costas ocidental e oriental de Africa, o PORTO largava de Lisboa com destino a Leixões, onde no dia seguinte, manhã cedo, engalanado em arco, demandava aquele porto nortenho da região e da cidade que lhe dera o nome e seis dias depois, a meio da tarde, com carregamento completo de mercadoria diversa deixava Leixões, sem que de véspera o seu armador, a Companhia Colonial de Navegação convidasse um elevado numero de entidades a visitar o modelar navio.
Os convidados, que foram recebidos pelos Snrs Dr. Soares da Fonseca, presidente do conselho de administração da Companhia Colonial de Navegação; Tenente-coronel Raposo Pessoa, administrador; Agostinho Pais, da Agencia de Navegação e Comercio, agentes do armador no Norte, e ainda pelo Cte Pires, capitão do navio, percorreram demoradamente todas as dependências daquela moderníssima unidade da Marinha Mercante, tendo sido obsequiados com um beberete.
Usou então da palavra o Dr. Soares da Fonseca, começando por afirmar o seu amor à cidade do Porto, que sempre foi uma grande metrópole, disse que a sua companhia lhe prestava aquela homenagem para que ao dar a uma das suas unidades o nome de PORTO, por intermédio desse navio, o Porto ficava ligado às cidades de além-mar.
Aquele era um grande navio de carga rápido, que permitia ganhar, em relação a outros, vários dias na ligação entre a Metrópole e Lourenço Marques, e a propósito, aludiu aos vários aspectos e características da nova unidade. E acentuou:
«Em suma; O PORTO é digno do nome que ostenta – nome da vossa cidade. Quero dizer, ainda, que só o facto de o PORTO se chamar Porto justifica a solenidade desta entrada em Leixões».
Aludiu em seguida aos progressos registados no Pais pela Marinha Mercante, facto que levava a encarar como normal a entrada ao serviço daquele barco.
Ao terminar brindou pelo PORTO navio e pelo Porto cidade.
A magnífica unidade mercante deixou a todos os visitantes a melhor das impressões.
O PORTO era um navio de
Em 1974, devido à junção da Companhia Colonial de Navegação com a Empresa Insulana de Navegação, foi formada a Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos, passando o PORTO a fazer parte da frota da nova companhia e com a liquidação desta, foi o mesmo vendido ao desbarato, por 65.000 contos, para sucata, à firma Desguaces del Guadalquivir, de Sevilha, a cujo porto chegou a 01/12/1985.
Resta acrescentar, que dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo saíram mais dois navios de grande porte para a Companhia Colonial de Navegação, que foram o LOBITO, 1959/83,
Rui Amaro
Fonte: Jornal «O Comércio do Porto»











