segunda-feira, 4 de agosto de 2008

« REBOCADOR FLUVIAL "SAFARI" »

Será que alguém poderá fornecer detalhes e história do rebocador fluvial SAFARI, da praça de Lisboa, que se mostra neste postal ilustrado, atracado a duas fragatas no cais das Colunas, estuário do Tejo? A data no verso do postal é de 1938.
Com os meus agradecimentos fico a aguardar noticias.
Rui Amaro

domingo, 20 de julho de 2008

« PONTES PEDONAIS NO PORTO DO DOURO - LINDAS MESMO MUITO LINDAS »

Caso as novas pontes sobre o porto do Douro venham a ser projectadas à cota baixa ou mesmo média baixa, imagens como as que se seguem deixarão de ser vistas, o que será lamentável!

A imagem mostra o navio-escola NRP SAGRES na sua primeira visita ao rio Douro, junto da ponte da Arrábida, em demanda do cais de Gaia, em 05/09/1990. /(c) Gravura de noticia do JN de 06/09/1990/.

A fragata NRP ALVARES CABRAL(I) mostra-se aqui subindo o rio Douro a 22/06/1963, ostentando as insígnias do Chefe de Estado, Almirante Américo Thomaz, que se deslocou à cidade do Porto, a fim de presidir à inauguração da ponte da Arrábida. /(c) Foto de F. Cabral/.

A fragata NRP ALVARES CABRAL(I), Navio Presidencial, mostra-se aqui no porto do Douro em 22/06/1963, preparando-se para fundear e amarrar à margem da Ribeira, a fim de desembarcar o Presidente da Republica, Almirante Américo Thomaz, onde seria recebido pelas altas autoridades representativas da cidade do Porto, aquando da inauguração da ponte da Arrábida.
Aquela fragata veio escoltada pelos patrulhas NRP's PORTO SANTO e MAIO. /(c) Foto de F. Cabral/.


Pois é!
Com a futura “Reabilitação da frente ribeirinha da cidade do Porto entre a ponte Maria Pia e a ponte da Arrábida”, tudo leva a crer que o rio Douro irá, dentro em breve, ganhar duas pontes pedonais. Uma entre o cais de Gaia e a ala Leste do edifício da antiga Alfandega do Porto, numa enormíssima e grotesca extensão, formando uma verdadeira curva suspensa (podiam-na estender até ao cais do Marégrafo, junto à barra, que ficaria ainda mais “Linda”, mesmo “Muito Linda”) e uma outra para ajudar, situar-se-á entre Massarelos, Porto, e o cais do Cavaco, Gaia, ali ao lado da ponte da Arrábida e tudo isso, possivelmente à cota baixa ou média baixa. A segunda, parece que está na fase de intenção. Ainda bem!
Agora, como diz o ditado não há duas sem três, neste caso sem quatro, fala-se numa terceira para o metro e transito rodoviário e ainda numa quarta dedicada ao TGV, junto da ponte da Arrábida, a uma cota mais baixa do que esta.
Para a actual navegação flúvio-turistica (navios-hoteis, cruzeiros e rabelos, etc.) e flúvio-oceânica comercial, essas pontes, que deveriam ser projectadas com uma flecha de cerca de 60m, não irão criar qualquer dificuldade à sua passagem. Já, embarcações de mastreação alta (tall Ships, certos vasos de guerra e navios presidenciais) deixarão de poder visitar o porto do Douro, o que é deveras lamentável, pois irão tornar o antigo porto comercial da cidade do Porto, mais triste e moribundo.
Se bem que, ultimamente não tenham sido vistos pelas águas do estuário do Douro, lá se vão as Sagres (cerca de 52m entre pontal e mastreação), Creoulas, Santa Maria Manuelas, Boa Esperanças, Glórias, Lord Nelsons, Frederic Chopins, etc. fazer companhia aos cimenteiros Gorgulhos e Caniçais, já há muito tempo idos e aos estaleiros navais, que parecem estar a desaparecer, infelizmente!
Eventos náuticos, como o célebre "Cutty Sark Tall Ships' Race/Prince Henry Memorial", que em Agosto de 1994 trouxe às margens ribeirinhas das cidades do Porto e Gaia, uma grande concentração de embarcações veleiras de mastreação alta, entre as quais os navios escolas Português Sagres, Colombiano Glória e o Polaco Iskra, que foi considerado um festival de enorme beleza e grandeza e que deu uma certa alegria e colorido ao rio Douro, só comparável às fainas fluviais de outrora, com uma substancial concentração de navios mercantes e bacalhoeiros, que, teimosamente, prevaleceram até finais da década de 60, jamais poderão ser realizados.
Ainda este mês de Julho, o navio de guerra alemão Bad Rappenau, esteve atracado ao cais da Estiva, Ribeira do Porto, a fim de realizar bancas e dar descanso à sua equipagem de quarenta elementos, os quais ficaram maravilhados com a beleza daquele lugar e com o seu património cultural e social tão valioso. Claro, se já existissem as ditas pontes, que são óptimas para ligar margens de rios, que não interfiram com qualquer tipo de navegação, como o caso do rio Mondego em Coimbra, aquela unidade naval já não poderia demandar o nosso rio e iria acostar ao porto de Leixões.
De facto nas cidades de Budapeste e Paris existem várias pontes à cota baixa, mas ai a navegação do Danúbio e do Sena é apropriada à sua passagem sob essas pontes, o que não se passa no porto do Douro, entre a barra e a ponte D. Luis, que pode ser utilizada por navegação de mastreação elevada.
Será que há todo interesse, e tudo isto com a anuência da autoridade portuária, em dar o golpe de misericórdia ao porto do Douro!? Parece que sim!
Note-se que o porto de Leixões, após os aproveitamentos em curso, vai rebentar pelas costuras e o rio Douro e o seu estuário será a solução, só que já parece ser tarde, devido aos passarinhos do Cabedelo, à urbanização e reabilitação da marginal da Afurada até Lavadores, margem de Gaia.
Em lugar das ditas pontes pedonais, uma das quais ficaria melhor situada, pelo aproveitamento das estruturas da antiga ponte pênsil, paralela à ponte D. Luis ou ainda melhor e de custos mais reduzidos, a colocação de passadiços exteriores para peões de ambos os lados do tabuleiro inferior, como julgo que se fez com o tabuleiro superior e que facilitariam o acesso de "multidões de peões" a ambas as margens, nem era preciso construir-se um cais acostável, bastava uma prancha-cais de razoável dimensão, junto do antigo ancoradouro das escadas da Alfandega, para receber embarcações como as acima referidas e ainda yachts cruisers de luxo. Valha-nos as marinas projectadas para o Freixo e São Paio, particularmente esta última. que irá chamar ao estuário do Douro muita da navegação de recreio, que passa ao largo da costa na procura de portos com melhores condições de acostagem e abrigo.
Não é, que o rio Douro agora está provido de uma nova barra, não será a ideal, mas pelo menos tem mais segurança!
Rui Amaro

terça-feira, 8 de julho de 2008

« BAD RAPPENAU - FOI A PRIMEIRA UNIDADE DA "BUNDESMARINE" MARINHA DE GUERRA ALEMÃ A DEMANDAR A BARRA DO DOURO »



O Caça-minas alemão "BAD RAPPENAU" (M 1607) atracado ao cais da Estiva/Terreiro, Ribeira, em 02/07/2008. /(c) Foto Rui Amaro/.

Já muitos e muitos vasos de guerra e navios-escola de várias armadas escalaram o porto do Douro, fossem em visitas oficiais, Presidenciais, rotina, bancas, etc. Eram do Reino Unido, França, Espanha, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Colômbia, Polónia, Suécia, Itália, Eire e particularmente de Portugal e desta última recordo-me em Junho de 1946 da visita do contratorpedeiro NRP DOURO, acompanhado dos submersíveis NRP’s DELFIM, GOLFINHO e ESPADARTE, 2ª esquadrilha, que vieram representar a Marinha nas Festas da Cidade do Porto, dedicadas ao São João, hábito muito antigo e que terminadas aquelas, numa manhã de nevoeiro cerrado, sob a orientação dos respectivos pilotos da barra, largaram do cais do Terreiro, Ribeira, onde se encontravam prolongados com o contratorpedeiro NRP DOURO, o qual apenas largaria passados alguns dias.
O primeiro, o NRP DELFIM desceu o rio e cruzou a barra sem qualquer percalço, sem que o prático, que se ia orientando pelos típicos ruídos de terra, vislumbrasse as margens, apenas uma das lanchas do rio ia assinalando com toques da buzina as usuais balizas do canal de navegação. O segundo, o NRP GOLFINHO, fundeou junto do lugar da Afurada, por receio do seu comandante, que encalhasse, contudo logo de seguida, aproveitando uma pequena aberta da névoa, suspendeu e fez-se à barra, que a cruzou com sucesso. O terceiro o NRP ESPADARTE, esse também fundeou por ordem do seu comandante, em Massarelos, só que devido à força da corrente, sem que de bordo se apercebessem, descaiu e foi sobre o banco de Massarelos, ficando encalhado na lama. Na maré da tarde safou-se pelos próprios meios e saiu a barra, já sem a temível cerração. Os três submersíveis destinavam-se ao porto de Viana do Castelo.
Vindo do Mediterrâneo, capitaneado pelo Kapitanleutnant Jochen Beyer, onde esteve afecto ao 2º Agrupamento Naval Permanente de Medidas Contraminas da OTAN (SNYCMG-2), juntamente com unidades das Marinhas de Espanha, Itália, Grécia e Turquia, sob a chefia do navio de apoio espanhol DIANA (M-11), demandou a barra do Douro, a fim de ser abastecido de combustivel e água fresca e ainda para dar descanso à sua tripulação de 40 elementos, entre os quais cinco oficiais e quatro mulheres, o caça-minas da Armada Alemã, a “Bundesmarine”, BAD RAPPENAU, que teve a particularidade de ter sido a primeira unidade daquela armada e mesmo da “Kriegsmarine” a visitar o porto do rio Douro e a cidade do Porto, que desde há bastantes anos não têm visto unidades navais estrangeiras cruzarem a sua barra, o que tem sido desmoralizador, pois daria um certo colorido às zonas ribeirinhas.

O BAD RAPPENAU, 54,5m/660tcp, que entrou a 02/07/2008 consignado à Garland Navegação, como representante da "Bundesmarine", atracou ao cais da Estiva/Terreiro, Ribeira, e fez-se ao mar a 04/07/2008 de rumo base naval de Kiel, Baltico, com escala por Cherbourg, França. Aquela unidade faz parte de uma série de 10 caça-minas costeiros (MHC) do tipo M3-332, da classe Frankenthal, tendo sido construída pelo estaleiro Abeking & Rasmussen, Lemwerder, e entregue à “Bundesmarine” em 19/04/1994. Casco de aço não magnético; 2 motores a diesel MTU 16 V 396 TB 84 – 2 hélices – 5.500 cv (4.080Kw); motor auxiliar para velocidades lentas e silenciosas; radar, sonar, 2 lança-engodos; armamento 1/27 – 2 sist. Stinger-Fligerfaust (IV x 2); câmara de descompressão; sistema de caça-minas MWS-80/4 da Krupp-Atlas, sistema de comando SATAM; 2 peixes autopropulsionados Pinguin B3 e sistema de navegação MC 500 da Ferranti.
Rui Amaro
Fontes: Revista Naval (Espanha); Fórum Defesa.com; Wikipedia, the free encyclopedia.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

«ANTÓNIO PINTO D'ALMEIDA "PANTALEÃO" UM VERDADEIRO LOBO DO MAR DA FOZ DO DOURO »



O piloto-prático da barra António Pinto d' Almeida "Pantaleão" exibindo várias condecorações, dentre as quais à direita, aquela que lhe foi atribuida pela Rainha Regente do Reino de Espanha

O piloto-mór do Douro e Leixões José Pinto d' Almeida

A 06.07.1888, dia de nevoeiro cerrado, navegavam muito encostados à terra, perto da Foz do Douro, duas pequenas canhoneiras da Armada Real Espanhola, a “PERLA” e a “RUBI”, que há dias eram esperadas na barra do Douro, possivelmente em visita de cortesia ou para abastecimento de carvão e viveres, as quais estavam a aproximar-se demasiado da costa, que no local é formada por imensa penedia bastante perigosa.
Na ocasião, António Pinto d’Almeida “Pantaleão”, marítimo, que se encontrava por casualidade perto da praia do Ourigo, receando o encalhe das então desconhecidas embarcações, que assinalavam a sua marcha e posição com toques compassados das suas sirenes de nevoeiro, ele e um outro comparsa, não hesitaram e lançaram-se às águas e nadando no meio da forte cerração, sujeitos a perderem-se, ele conseguiu alcançar o alvo com enorme espanto dos comandantes e das guarnições daqueles vasos de guerra, conquanto o seu companheiro havia desistido, regressando à praia. Recolhido a bordo da “PERLA” e uma vez reconfortado, ordenou marcha à ré evitando assim o encalhe e possível perda das duas embarcações.
Passado o perigo de encalhe e sempre sob denso nevoeiro e sua orientação, a “PERLA” e a “RUBI” demandaram a barra do Douro, tendo então subido a bordo os respectivos pilotos da barra, que substituíram aquele arrojado marítimo e prático nato da área, indo as duas canhoneiras dar fundo no lugar do Bicalho, Massarelos, sem mais percalços.
Em face desse nobre, arrojado e espectacular feito, a Rainha Regente de Espanha agraciou com uma das mais elevadas condecorações do Reino aquele destemido marítimo, um verdadeiro lobo do mar da Foz do Douro, que também era um exímio nadador de competição.
A canhoneira “PERLA” afecta ao comando naval de Cadiz, pertencia â classe DIAMANTE da qual faziam parte a “RUBI” e a “DIAMANTE” e como estas, também fora construída em Espanha para o serviço de patrulha em zonas de baixios e vias fluviais de Espanha e devido ao seu reduzido calado, mais tarde, foi colocada no serviço de fiscalização do rio Minho internacional até à fronteira de Tuy/Valença. Em 1925 passou à disponibilidade, tendo então sido desmantelada para sucata.
Características principais: Casco em ferro; 19m/42tb; força de máquina 110hp; velocidade 7 nós; raio de acção 400 milhas; bancas 5tons; hélices 1; equipagem 26 homens: metralhadora 1 de 25mm/cal. 42.
Na eventualidade do episódio acima assim se ter passado, possivelmente deve ter sido um dos casos em todo mundo, se não o único, em que um marítimo abordou a nado uma embarcação para evitar o encalhe das duas unidades navais na costa e as fazer conduzir a bom porto.
O António Pinto d’Almeida “Pantaleão”, herói e destemido protagonista do episódio acima relatado, tempos mais tarde candidatou-se e foi admitido a piloto da barra da Corporação de Pilotos da Barra do Douro e do Porto Artificial de Leixões.
No dealbar do século XIX para o século XX foram admitidos a pilotos práticos das barras do Douro e Leixões dois candidatos de nome José Pinto d’Almeida e António Pinto d’Almeida, ambos irmãos, também eles conhecidos por “Pantaleão” e familiares daquele a que se refere o texto. O José foi empossado no cargo de piloto-mor a 16.11.1925, tendo sido um chefe carismático, que defendia os seus subordinados, quando por qualquer motivo eram chamados à presença do capitão do porto, por quem era muito respeitado, tendo dado um certo dinamismo à sua corporação, pois foi à Alemanha adquirir a primeira lancha-motor, a “P1” e tal como o seu ascendente foi um verdadeiro lobo do mar no salvamento de inúmeros náufragos e também era muito capacitado no lançamento de foguetões para estabelecer o cabo de vaivém para resgate das tripulações das embarcações em perigo, pois assim sucedeu aquando do encalhe do paquete inglês “VERONESE”, ocorrido em 1913 junto do lugar da Boa Nova e em que a sua participação foi muito activa e meritória no salvamento dos náufragos.
Conta-se, que um certo dia, quando um capitão do porto advertia aquele piloto-mor, por um piloto se ter visto obrigado a fazer uso da sirene do vapor que conduzia. Pois na altura esse superior hierárquico assim proibira de as embarcações fazerem uso da sirene, o que era, verdadeiramente contra producente. O dito piloto-mor insurgindo-se contra o capitão do porto, frisou-lhe que a partir de então, os seus subordinados passariam a fazer uso da sirene, quando para tal o entendessem e ainda mais lhe disse “Menino, aqui (na Capitania) mandais Vós, mas lá em baixo (na barra e no rio), quem manda sou eu” e indignado abandonou o gabinete do capitão do porto.
Há uns tempos, numa reportagem de canal de televisão, mostrava o prático do porto Brasileiro de Aracajú - Sergipe, já perto da reforma, de seu nome José Martins Ribeiro Nunes, mais identificado por "Zé Peixe", que para desembarcar do navio que conduzia, não utilizava as usuais escadas de quebra-costas, pois tinha por mania lançar-se à água e então aí, era recolhido pela lancha de práticos, que o conduzia a terra, ou nadava mesmo até à costa. Aquele prático é que era um autêntico “crazy pilot”. Nem ao diabo lembrava tal acto!
Rui Amaro

Ver video em Prático Zé Peixe
Fontes: 1) Pedro Reis

2) http://www.spanawar

A canhoneira "PERLA" amarrada no rio Minho, junto a Tuy. /Postal ilustrado-Colecção privada/.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

« O REBOCADOR "VANDOMA" ex "ST-745" »

Uma certa manhã dos primeiros meses de 1949, com os meus 12 anos de idade, viajando de carro eléctrico da Foz do Douro para o Porto, a fim de me dirigir ao estabelecimento de ensino, que frequentava, já muito próximo de Massarelos, vislumbrei uma embarcação um pouco esquisita, casco bojudo e chaminé deveras dimensional, amarrada no conhecido lugar do Quadro dos Bacalhoeiros, margem direita do rio Douro, cujo seu aspecto nada se igualava aos rebocadores da época. Tal embarcação mais parecia uma unidade de outra qualquer armada, menos da Portuguesa, devido ao seu casco e estruturas se encontrarem pintados na sua totalidade de cinzento-escuro. À proa, nas amuras, e se bem me lembro, também na chaminé, distinguia-se a sua identificação e número ST-745, pintados de cor preta, que correspondia ao nome da embarcação.
Essa embarcação esquisita, que viera substituir o velhinho mas sempre relevante e popular rebocador TRITÃO, 36m/172tb, que já deveria ter ido para a reforma há bastantes anos, pois fora construído em Inglaterra em 1888, por encomenda do Governo Português e entregue à Junta Autónoma dos Portos do Norte – Douro/Leixões, actual APDL, era nem mais nem menos do que o actual rebocador VANDOMA, que acabara de chegar da Holanda, já com bandeira e tripulação Portuguesa, onde fora adquirido para servir de rebocador portuário nos portos do Douro e Leixões, particularmente neste último, além de prestar apoio à navegação em dificuldades ao largo da costa.
O VANDOMA ex ST-745, 26,68m/154,89tb, 690HP/1.250HP, fora construído em 1944 nos EUA pelo estaleiro Tampa and Marine Corp., Tampa. FL, de acordo com o projecto 327 e entregue à US ARMY CORPS para aumentar o esforço de material flutuante para fazer face à Segunda Guerra Mundial. Ainda no mesmo ano do seu lançamento á água foi enviado para o teatro de operações de guerra na Europa e fazendo parte do comboio naval NY-118, deixou a costa Leste dos EUA a 23 de Julho, alcançando o porto de Falmouth, Sudoeste de Inglaterra, a reboque do navio de desembarque LST-363, a 17 de Agosto, por conseguinte 25 dias de mar. Há quem diga que tomou parte no desembarque das forças aliadas nas costas da Normandia, célebre “D-Day”, nas manobras do posicionamento dos navios afundados, propositadamente junto às praias, e ainda dos módulos de concreto destinados a estabelecer molhes, ou seja um género de porto artificial.
Em 1949 foi vendido à Sociedade de Representações., Lda., Lisboa, ficando a pertencer à APDL – Administração dos Portos do Douro e Leixões, Porto, em 1950. Após os fabricos, julgo, totalmente realizados no ancoradouro de Massarelos e em Leixões, fez experiências de mar a 30/04/1949, demonstrando as suas excelentes potencialidades de manobra e marcha, já pintado com as cores da APDL, muito mais interessantes do que as actuais.
Década de 70 com a vinda de novos rebocadores foi entregue à JAPN – Junta Autónoma dos Portos do Norte, Viana do Castelo, a fim de substituir o rebocador RIO VEZ, entretanto tragicamente naufragado naquela barra minhota. Em 1983 tomou as cores alaranjadas da TINITA- Transportes e Reboques Marítimos SA, empresa de rebocagens sedeada em Viana do Castelo, continuando a servir aquele porto até 2005, e bem, devido ao facto de lhe ter sido instalado um propulsor do tipo "Schottel", à proa, pelo que ganhou melhor manobralidade e capacidade de tracção, o que lhe permitiu operar até tão tarde.
Perto do final do afretamento, a TINITA tornou a pintá-lo com as cores do seu antigo armador, a JAPN, casco preto e superstruturas de amarelo e branco, tendo sido entregue ao agora IPTM - Instituto Portuário dos Transportes Marítimos, delegação do Norte, entidade que substituiu a JAPN na administração do porto de Viana do Castelo. Como anteriormente na chaminé tinha as letras JAPN, que já não existe, optaram por manter a cruz de Cristo, simbolo da TINITA e que todas as unidades daquela empresa ostentam, e segundo parece, tem a ver com as preferências clubisticas de um dos fundadores daquela empresa de sucesso - o popular "Belenenses".
Actualmente, encontra-se atracado ao terminal de cargas rolantes (Ro-Ro) do porto comercial de Viana do Castelo, a aguardar desmantelamento para sucata, após cerca de 60 anos de bons e úteis serviços, contudo teve ainda a oportunidade de participar nas filmagens do "Assalto ao Santa Maria", parcialmente rodado no navio-hospital GIL EANNES. Para o efeito navegou pelos seus próprios meios, apenas com o impulsor de proa, para a doca comercial, recebendo o nome e porto de registo de ocasião, GIERIG - Curacao, e já que não ficará preservado como motivo museológico junto do GIL EANNES, pelo menos foi o melhor fim para uma tão rica e longa carreira, iniciada há 64 anos na sua vinda para a Europa, a fim de tomar parte no esforço de guerra Aliado para combater o Nazismo.

Em 1954, juntamente com o MONTALTO e o MERCÚRIO 2º, participou nas operações de reflutuação do navio-motor COLARES, encalhado à entrada da barra do Douro, que foram coroadas de êxito e ainda na tentativa de resgate da tripulação do vapor SILVER VALLEY, encalhado a 17/03/1963 no Cabeço daquela mesma barra, entre outras. Os seus gémeos de bandeira Portuguesa, mais aproximados, foram os rebocadores GUIA, porto de Macau, além do CATUMBELA e DANDE, governo de Angola e entre os estrangeiros existe o VERNICOS IRINI, da Turquia, cujo armador o ofertou a um museu maritimo daquele país.
Dentre várias operações de reboque de material flutuante de obras públicas, nomeadamente portuárias, colaborou em 1963, juntamente com outro rebocador da APDL, no reboque do pontão MARIETA que transportava os "cimbres" para construção da Ponte da Arrábida sobre o rio Douro.
No Verão de 1949, num passeio na ria de Aveiro, que realizei com meus Pais, na bateira da apanha do burrié e berbigão, um género de moliceiro, propriedade do nosso saudoso parente Manuel Galvão, entre o cais do Bico, Murtosa, e a barra de Aveiro, navegação que de principio foi feita à vara e quando o vento norte refrescou foi de vela enfunada à escota larga, até perto da barra e junto aos Estaleiros Navais de São Jacinto, a fim de se cozinhar e almoçarmos, atracou-se à rebeça de um dos três rebocadores de origem Americana, então, recentemente adquiridos, se bem que de menor deslocamento do que o VANDOMA, os quais se encontravam em finalização de fabricos. Eram eles, o MONTE GRANDE e o MONTALTO destinados à APDL, e ainda o RIO VEZ à JAPN, que entraram ao serviço em Março de 1950. No regresso à Murtosa, foi navegar à bolina, à escota curta, com paragem no Moranzel e na Torreira, com a água a emborcar na embarcação e vertedouro a despejá-la para a ria, além da “toste”, pá da borda, a ser lançada à água conforme o respectivo bordo. Da Torreira rumou-se à Béstida e daí com vento de feição, chegávamos ao cais do Bico, Murtosa, ao final da tarde, após um agradável e ventoso dia na laguna de Aveiro.
A frota de rebocadores da APDL em 1950, e após a imobilização do velho TRITÃO no seu primitivo ancoradouro do caneiro da Ínsua, rio Douro, ficou constituída pelos rebocadores VANDOMA, MONTE GRANDE, MONTALTO, e também o rebocador a fogo MIRA e de acordo com uma fonte recente, aquando da aquisição daqueles novos rebocadores, a APDL esteve para adquirir um outro de maiores dimensões e mais potente, também de origem Americana.
Rui Amaro
Fontes: Imprensa diária
Mr. Hugh Ware (Tugboats – Silverside & Mutiara)
Malheiro do Vale - Viana do Castelo

O rebocador "VANDOMA" com as cores da APDL, após os fabricos, procedendo em 30/04/1949 às experiências finais no rio Douro. / (c) Gravura de noticia de "O Primeiro de Janeiro"/.

O rebocador "VANDOMA", no porto de Leixões, auxiliando as manobras de um navio em 06/06/1960 /(c) Foto de Rui Amaro/
O rebocador "VANDOMA" demandando o porto de Leixões em 29/10/1967./(c) Foto de Rui Amaro/.
O rebocador "VANDOMA" na doca do porto de Viana do Castelo em 07/1985./(c) Foto de Rui Amaro/.

O rebocador "VANDOMA" acostado ao cais de cargas rolantes do porto de Viana do Castelo, aguardando o desmatelamento, em 2007./(c) Foto de Rui Amaro/.

O rebocador "VANDOMA" no porto de Viana do Castelo em 06/2008, ostentando o seu nome e porto de registo de ocasiãio, para a rodagem do filme "O Assalto ao Santa Maria"./(c) Foto gentilmente cedida pelo Amigo Malheiro do Vale/.

O rebocador "VANDOMA" no porto de Viana do Castelo em 06/2008, ostentando o seu nome e porto de registo de ocasiãio, para a rodagem do filme "O Assalto ao Santa Maria"./(c) Foto gentilmente cedida pelo Amigo Malheiro do Vale/.

Os novos rebocadores da APDL, da direita para a esquerda, "VANDOMA", "MONTE GRANDE" e o "MONTALTO" na doca nº 1 do porto de Leixões em 16/03/1950. /(C) gravura de noticia de "O Primeiro de Janeiro"/

O velho rebocador "TRITÃO", após a sua imobilização, amarrado no Caneiro da Insua, rio Douro, em 1949. /(c) Foto de F. Cabral/.