O SANTA MARIA MANUELA prolongado com SANTA MARIA MADALENA na doca de flutuação do porto de Viana do Castelo em 1950.Um lugre de quatro mastros pintado de branco, com mazelas aqui e ali originadas pela “Dura Faina Maior dos Grandes Bancos do Noroeste do Atlântico”, todo elegante de velas enfunadas ao vento, estava à vista ao Noroeste do porto de Leixões, ainda na linha do horizonte e como embarcação de bom navegar, particularmente à vela, em pouco tempo estava à barra. Recebendo prático demandava o porto e fundeava a dois ferros na Bacia, vindo aliviar carga ou aguardar melhor maré na barra de Viana do Castelo, seu porto de armamento. Por vezes, parte da carga era baldeada para batelões na Bacia, que a levavam para aquele porto do Alto Minho. Poucos anos antes da sua ida para o armamento de Aveiro, já descarregava nos cais de Leixões. Passados alguns dias, já com calado suficiente, lá rumava a Norte, onde era recebido festivamente na doca de Viana do Castelo. Esse lugre era o SANTA MARIA MANUELA!
A forma do casco do SANTA MARIA MANUELA, que juntamente com os navios bacalhoeiros de pesca à linha da sua época, fez parte da mundialmente conhecida “Portuguese White Fleet”, é a dos tradicionais palhabotes da Terra Nova, Nova Escócia ou Massachusetts, mais identificados por “Newfoundlanders”, “Nova Scotians” ou “Gloucesters”, utilizados na pesca do bacalhau ou no comércio Atlântico, à vela que prevaleceram até à primeira metade do século XX, os quais eram bastante velozes na sua navegação, além disso trata-se de um navio de quilha corrida e leme ordinário no seu prolongamento, grande calado, pequeno pontal e boca ficando assim com as formas afiadas que apresenta. A proa é de colher, saindo aí o gurupés. A popa é arredondada com um lançamento acentuado. A borda falsa é corrida tendo várias portas de mar, buzinas maiores para as espias e outras mais pequenas para passagem das escotas das extênsulas. O convés é em tabuado corrido, assente sobre vigas e longarinas, tendo um pequeno desnível a meia-nau, interrompido por vários rufos, 4 mastros e cabrestantes. Tinha a particularidade de ter sido o único lugre da frota a possuir uma baleeira, a qual lhe fora instalada em 1953.
A Empresa de Pesca de Viana manteve o navio em actividade até 1962, ano em que o vendeu a um armador da praça de Aveiro, a Empresa de Pesca Ribau, que ainda operou com o navio na sua forma original durante alguns anos.
No fim da década de sessenta, o navio iniciou uma fase de importantes transformações sendo-lhe retirados sucessivamente os mastros, acrescentado um novo convés, uma ponte de comando e nova motorização. Tais alterações foram ditadas por imperativos de viabilização económica, bem como pelas inovações tecnológicas introduzidas na pesca do bacalhau tendo, em consequência, sido abandonada a pesca do bacalhau à linha em dóris e introduzido o sistema de redes de emalhar com baleeiras de alumínio e alador directo do navio, bem como os sistemas de "long-line”.
Em 1993, apesar de todas as transformações sofridas, o navio é considerado obsoleto sendo abatido por demolição ao registo dos navios de pesca. No Verão desse mesmo ano vi-o imobilizado em São Jacinto, muito adulterado, se bem que ainda como navio-motor de cor azul, tão triste e moribundo.
Em 1994, alguns membros fundadores da então Fundação Santa Maria Manuela, pelos mesmos ideais, conscientes do valor dos salvados na eminência de serem vendidos para o estrangeiro e, com a prestimosa ajuda do armador, decidiram comprar toda a sucata de ferro do navio, casco e alguns equipamentos armazenados no Estaleiro de São Jacinto SA, Aveiro, e iniciar o processo de recuperação da réplica do SANTA MARIA MANUELA, segundo o projecto original, de 1937, tendo em vista alcançar os objectivos estatutários da Fundação, não tendo esse plano vingado. Daquela fundação fazia parte Vitorino Paulo Ramalheira, que foi um dos capitães do lugre.
O SANTA MARIA MANUELA durante a sua existência como navio bacalhoeiro foi comandado pelos seguintes capitães: 1937/45 João Pereira Cajeira; 1946/51 José Bolais Mónica; 1952 José André Senos; 1953/59 Alberto Almeida Monteiro; 1960/62 Joaquim Jorge Rodrigues; 1963/65 Silvério Teixeira; 1966/67 Vitorino Paulo Ramalheira; 1968 José Mário Gordinho; 1969 Vitorino Paulo Ramalheira; 1970/92 João Guilherme da Silva Ferreira; 1993 José Alberto Bilelo.
Passados treze anos, Março de
Entretanto o SANTA MARIA MANUELA foi levado para o estaleiro da Navalria, Gafanha da Nazaré, para a sua primeira fase da reconstrução propriamente dita: casa das máquinas, novos alojamentos, porões convertidos em camarotes para o treino de mar, os mastros, as casarias, pinturas, etc.
Finalizados aqueles trabalhos, a 13/12/2008 recebeu a visita dos leitores e amigos do seu deslumbrante e continuo Blogue, alguns idos propositadamente de terras distantes, a qual foi bem concorrida, apesar do vento, frio e chuva torrencial e a 29 deixou a ria de Aveiro, a reboque do rebocador VALDIVIA da Xunta de Galicia, com destino ao porto de Marin, na nossa vizinha Galiza.
Agora, que se encontra nos estaleiros da Factoria Naval de Marin, aguarda novos trabalhos, e lá para Outubro, para os acabamentos, cá o teremos de volta à ria de Aveiro, mais exactamente à Gafanha da Nazaré, lugar onde foi iniciada a sua recuperação para uma nova vida, que não será estática mas sim muito animada, singrando por esses mares oceânicos, para enlevo dos entusiastas de navios e das coisas do mar, dos profissionais da pesca do bacalhau, nomeadamente daqueles que viveram a pesca à linha em navios de vela, da cultura marítima Portuguesa e da nossa identidade enquanto povo e para memória da dura “Faina Maior”. Nas suas visitas a portos nacionais, talvez motive os jovens a seguir a Marinha Mercante, como forma de vida.
Em 2010, após os fabricos finais, vistorias, classificações e documentação oficial emitida, o antigo lugre dos gelos do Noroeste do Atlântico terá uma nova vida, como um prestante embaixador da região centro e de Portugal. Será também um verdadeiro promotor de turismo cultural de vocação marítima e atracção para novos fluxos de cruzeiros, ciência, inovação e cultura, sectores que se encaixam nos objectivos do projecto.
Parabéns à firma Pascoal & Filhos SA., a qual se tem empenhado vivamente em recuperar aquela jóia da antiga pesca do bacalhau e da construção naval Portuguesa, apesar das duras dificuldades que a indústria pesqueira e transformadora de pescado tem suportado, assim como às parcerias e outras entidades intervenientes no empreendimento. Parabéns também ao projectista, à Navalria e a quantos contribuíram com o seu esforço e trabalho para a renovação daquele quatro mastros, não esquecendo a Factoria Naval de Marin SA., que está incumbida de novos fabricos.
A frota da Pascoal é constituída por dois dos mais modernos navios de Portugal, nos quais é feita a pesca de uma parte do bacalhau que é posteriormente processado na fabrica da Pascoal, Gafanha da Nazaré, Ílhavo, para comercialização.
O PASCOAL ATLÂNTICO é um dos melhores e mais modernos navios de pesca do largo em operação. Construído em 1992 nos Estaleiros Navais de São Jacinto, Aveiro, é um dos arrastões mais inovadores da frota Portuguesa. Com 69,4m/1.513tb, a sua máquina principal desenvolve 2000HP, projectado tendo em vista as melhores condições da vida a bordo e equipado com os mais avançados equipamentos de pesca, o navio proporciona qualidade de trabalho e conforto à tripulação durante as mais longínquas viagens, que tem um lotamento de 30 homens, essenciais ao sucesso de uma viagem normal de pesca.
A capacidade de congelação do PASCOAL ATLÂNTICO é de 40 toneladas/dia. Bacalhau, redfish, solha, palmeta e tamboril são processados nos seus 4 porões frigoríficos, de 900 toneladas cada. A autonomia de pesca do navio atinge 5 meses em alto mar.
O outro, é o CIDADE DE AMARANTE, 64,5m/1.394tb. também construído pelos mesmos estaleiros em 1990 e de características bastante semelhantes à do PASCOAL ATLÂNTICO, a sua máquina principal desenvolve 2000HP, Oferece boas condições de habitabilidade à sua equipagem. Possui dois porões e duas cobertas com capacidade de armazenamento de 900 toneladas de peixe. Das espécies pescadas por este navio destacam-se o bacalhau, o redfish, a solha e a palmeta. Tem autonomia para 5 meses
As zonas de pesca da frota daqueles navios são a Noruega/Svalbard, Irminger Sea (Islândia), Nafo e Groenlândia.
Estou na roda dos 70 anos de idade, assim como o antigo lugre da praça de Viana do Castelo e tal qual a PASCOAL, palavra que já ouço pronunciar desde a minha infância, devido à actividade de meu pai, piloto da barra, eram os navios da Pascoal & Filhos. Lda.: lugres-motor RAINHA SANTA ISABEL, DOM DENIZ e o arrastão ANTÓNIO PASCOAL, navios tais, que vinham ao Douro e a Leixões aliviar carga ou aguardar melhores águas para demandar a barra de Aveiro e ainda os arrastões MARIA DE RAMOS PASCOAL e INVICTA e também o navio-motor RAINHA SANTA, que a 25/02/1974 sofreu um incêndio destruidor na Gafanha da Nazaré e mais tarde foi vendido a interesses locais e convertido em navio-restaurante, ficando acostado à margem da ria de Aveiro, perto da Torreira.
Do DOM DENIZ lembro-me de o ter modelado em palmeira, de modo tosco, pintadinho de branco, três mastros com velas de cartão, leme de folha de flandres, e colocado na água das poças da praia, e dando o jeito certo às velas e dobrando o leme, o brinquedo flutuante lá navegava à bolina, e não era só o DOM DENIZ, modelava outros lugres, tais como o nosso agora tão divulgado MANUELA. Era um hábito saudável das brincadeiras da “ganapada” da borda d’água, aqui da Foz do Douro, hoje em dia esquecidas.
Havia uma outra empresa a Pascoais Unidos, Lda., Matosinhos, que certamente era associada, pois as pinturas das suas embarcações eram totalmente idênticas, casco verde e chaminé vermelha, barra branca com lista azul, fora o DOM DENIZ, que como elemento da “Portuguese White Fleet” era pintado de branco. A sua frota era constituída pelo rebocador MARIALVA, batelões CANTANHEDE, GIBRALTINA e COSTA NOVA, e ainda o arrastão da costa PASCOAL VELHO e a traineira do cerco PASCOAL NOVO. Recordo-me dos arrastões da costa da Pascoal & Filhos SA. DULCINHA, TIMANÉL, PASCOAL SUL e os do largo NOVA FÉ e PASCOALMAR.
Devo anotar que o malogrado TIMANÉL, durante a sua existência sofreu quatro acidentes, dos quais o último foi fatal: 25/02/1974, porto de Leixões, após ter sido abastecido de combustível no molhe Sul, ao fazer marcha à ré, foi sobre umas pedras, fazendo água, acabou por encalhar e adornar; 16/02/1978, em pleno mar sofre um incêndio e é abandonado pela tripulação, que se refugia nas balsas. È rebocado para o porto de Leixões pelo arrastão JUSTINO RAMALHEIRA; Em data desconhecida sofre um abalroamento no porto de Leixões; Finalmente a 27/03/1983, como NARJIUS II, quando de noite demandava a barra de Aveiro, sofreu uma avaria na máquina, acabando por encalhar e adornar, pereceu o seu mestre e um camarada Marroquino.
E agora, como motivo de gratidão pelo esforço que aquela empresa tem vindo a fazer com a recuperação do MANUELA, passe a publicidade, se à mesa de minha casa, já se consumia o delicioso fiel amigo, É BACALHAU, É PASCOAL, futuramente além do bacalhau, passarei a consumir outros produtos com etiqueta PASCOAL!
Fontes:
Pascoal & Filhos SA. (Internet)
Reimar – relação dos capitães do SMM
Imagens – Cortesia da equipa do Blogue SMM, Foto Mar-Leixões, Imprensa diária e Rui Amaro.
Rui Amaro
O SANTA MARIA MANUELA, convertido em navio-motor das artes de redes de emalhar, vê-se aqui imobilizado em São Jacinto, Ria de Aveiro, Verão de 1993.






























