quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

PRESTANTE REBOCADOR DE ALTO-MAR PORTUGUÊS

PRAIA GRANDE

A noticia veio de África em 1967. Chegou ao porto de Moçâmedes o rebocador de alto-mar PRAIA GRANDE, da Sociedade Geral, para ali prestar serviço. Pode parecer uma banalidade… pois o seu destino e aplicação é esse mesmo.

Mas algo robustece a ocorrente “missão de serviço”. Aquela pequena embarcação que foi construída nos estaleiros do estuário do Tejo, reúne nas suas modestas 512 toneladas e 48 metros de comprimento, características utilitárias de grande monta, como demonstrado foi na sua utilização para importantes atribuições marítimas, desde os reboques melindrosos aos socorros pressurosos, solicitados em várias emergências, no decorrer de dez anos, que tantos são, mais meses ou menos meses, os do seu utilitário serviço.

Curioso assinalar que antes de chegar ao porto Sul Angolano, o PRAIA GRANDE deu uma volta ao Mundo, via canal do Panamá, navegando 32.472 milhas em 233 dias. Durante o percurso efectuou três grandes derrotas: duas de trinta e cinco dias; uma de trinta e seis. O rebocador saiu do porto de Lisboa para a sua grande viagem com destino a Orange, no Texas; dali rumou à ilha Formosa, Taiwan, rebocando dois “destroyers”. Partiu depois para Hong Kong; e deste porto iniciou a sua viagem para Angola.


O PRAIA GRANDE demandando o porto de Leixões em 14/06/1965, vindo dos Açores, conduzindo material flutuante para obras naquele porto /(c) Rui Amaro /.

Durante ela foi obrigado a mudar de rumo para efectuar um salvamento: o do navio Grego ELEIN, que ao Norte da ilha Tristão da Cunha, no Atlântico Sul, a duzentas milhas do Cabo da Boa Esperança perdera o hélice. Então o ELEIN foi rebocado pelo PRAIA GRANDE para Capetown. Passou em Luanda, a caminho da Metrópole, com escala por Las Palmas.

Deixaremos, aqui em Lisboa, de ver por algum tempo, no Tejo (onde foi construído) o PRAIA GRANDE. Conservar-se-á em Moçâmedes ao serviço da Companhia Mineira do Lobito, que o fretou para o tráfego de acolhimento na zona do cais de exportação de minério de ferro. O mais recente serviço que prestou foi por em movimento um dos grandes navios da frota mercante mundial: o WAHABATA MARU, da marinha mercante japonesa que tem 93,113 toneladas de deslocamento.

Tudo isto aconteceu em 1967.

PRAIA GRANDE – 48,4m/511,9tb/ Potência 1.360 cavalos/ Vel. Max. 12,6 nós/ Vel. Cruz. 11 nós; 03/1953 entregue pelo estaleiro da CUF, Rocha, Lisboa; 1970 PHOENIX, J.L. & A. Goulandris, Greece; 2008 PHOENIX, Neorian New Spyros Shipyard, Spyros, Greece, bandeira do Bangladesh; Gémeo PRAIA DA ADRAGA.

http://www.shipspotting.com/search.php?query=foinix&action=results

Fontes: Jornal do Comércio – 29.09.1967, Miramar Ship Index, Sea Agent.

Foto: armador.

Rui Amaro

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O NAVIO-MOTOR BACALHOEIRO “SAM TIAGO” DEIXA A BARRA DO LIMA

O SAM TIAGO na doca Comercial /(c) Diário do Norte /.


A saída do novo navio da pesca do bacalhau à linha SAM TIAGO a 17.04.1955, posto a flutuar nas cerimónias da flutuação do navio de apoio à frota bacalhoeira GIL EANNES em 11.03.1955, fez atrair à doca comercial centenas de pessoas que admiraram a nova unidade pesqueira, impecavelmente pintada de branco, como manda a tradição da “Portuguese White Fleet”, oferecendo um soberbo aspecto.
No mastro da ré já flutuava a bandeira representativa da SNAB – Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau, Lisboa, empresa a quem se destina. A saída, prevista para as 10h00, só se verificou perto das 12h00, mesmo assim, esse atraso não diminuiu o interesse dos numerosos curiosos que ali se mantiveram para ver a largada de mais um bacalhoeiro construído nos abalizados estaleiros de Viana do Castelo.


O SAM TIAGO saindo da doca Comercial /(c) Joranl de Noticias /.

À partida compareceram as autoridades portuárias e administradores daqueles estaleiros que apresentaram cumprimentos de despedida ao capitão da nova unidade, o cmte José Teiga Gonçalves Leite.
Foi pois com sentida emoção que o SAM TIAGO começou a deslizar suavemente pelo canal de acesso à doca, impulsionado pela sua máquina de 950 BHP. Fora da barra, já depois de desembarcado o respectivo prático, com a máquina em pleno rendimento, a moderna unidade tomou rumo ao porto de Lisboa, onde se foi aparelhar para iniciar a sua primeira campanha de pesca dos mares gelados do Noroeste do Atlântico, dentro de dias.

O GIL EAANNES, á esquerda, e o SAM TIAGO, à direita, nas doscas dos estaleiros Vianenses /(c) imagem de autor desconhecido /.


O SANTIAGO já transformado em arrastão sia do porto de Leixões de rumo ao Douro em 29/06/1967 / Rui Amaro /.


SAM TIAGO – imo 5308524/ 67,2m/ 1.184tb/ 17.000 quintais/ 26 tripulantes/ 74 pescadores/ 10nós; 04/1955 entregue pelos ENVC – Estaleiros Navais de Viana do Castelo, Viana do Castelo, à SNAB – Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau, Lisboa; 1962 SAM TIAGO, convertido num arrastão classico lateral;1970 Parceria Marítima Esperança, Aveiro; 2008 SAM TIAGO, American Shipbuilding, Lorain, EUA.
Subsequente história não encontrada.
Navio gémeo e do mesmo armador: NOSSA SENHORA DA VITÓRIA
Fonte: Imprensa diária
Rui Amaro

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

RECORDANDO O ABALROAMENTO DO NAVIO-MOTOR “MIRA TERRA” COM O NAVIO-TANQUE “CLÁUDIA” NO INICIO DA DÉCADA DE 60


Com o fim de descarregar gasolina e outros combustíveis, encontrava-se em Leixões em ??, atracado ao cais do molhe Sul, o navio-tanque CLÁUDIA, pertencente à SOPONATA, e ao serviço da Sacor. Cerca das 06h00, e após a descarga dos combustíveis, o CLÁUDIA foi fundear na Bacia, aguardando a todo momento, que o espesso nevoeiro que dominava em toda a costa, se dissipasse. Eram 09h05 precisas, quando a atmosfera se desanuviou um pouco. O comandante Álvaro Garrido Pedro, ordenou imediatamente que se levantasse ferro, e com o piloto da barra dirigindo a manobra, fez-se ao mar.Navegava aquele navio-tanque com as máximas precauções, apitando amiudadas vezes como manda o regulamento marítimo, quando a seis milhas e meia da costa, ao mar de Espinho, lhe surgiu na amurada por bombordo, o navio-motor MIRA TERRA, da Sociedade Geral, capitaneado pelo Cmte António Camarate Carrilho, já muito perto, que navegava para Leixões, só se ouvindo nessa altura o sinal característico de aproximação.

Eram precisamente 10h10, o comandante do navio-tanque que atento ao mar, na ponte de comando, com o imediato, Vasco Correia, e 1º maquinista Mário Fernandes e os marinheiros Bento José dos Santos Arcadinho, este ao leme, e Manuel António Henriques, ao verificar que o navio de carga ia abalroar com seu barco pelo través, o que era um perigo enorme, visto que nos tanques havia muitos gazes, dando mostras duma grande perícia, ordenou prontamente ao timoneiro que rodasse o leme todo a bombordo, enquanto com as máquinas a toda a força o CLÁUDIA tentava escapar. Como não podia deixar de ser, deu-se a colisão, felizmente sem grande perigo. O MIRA TERRA embateu com a proa por bombordo do CLÁUDIA, produzindo-lhe um extenso rombo. A colisão que foi violenta, apanhou no beliche, apenas o tripulante José Ramos Carrelo, de 27 anos, da Cova da Piedade, em Almada, que com a violência da pancada, foi projectado, ferindo-se no frontal e coxa esquerda.

Logo que se deu o embate, as duas embarcações entraram em contacto com as autoridades marítimo-portuárias de Leixões, que tomou imediatas providências, entrando neste porto, ambos os barcos, cerca das 12h00, fundeando na Bacia e sendo o tripulante sinistrado conduzido aos serviços de urgência do Hospital de Matosinhos.


CLÁUDIA em Leixões / (c) Foto-Mar, Leixões /.

CLÁUDIA – Navio-tanque costeiro, 56m/638tb, 2 hélices; 1944 entregue pelo estaleiro Odenbach Shipbuilding Corp., Rochester, NY, como Y80 para a US Army Tankers; 1946 CLÁUDIA, Cia. Marítima Caralaga SA, Honduras; 1951 CLÁUDIA, SOPONATA - Soc. Portuguesa de Navios Tanques, Lisboa, que o colocou no tráfego costeiro nacional, particularmente fretado à Sacor Marítima, Lisboa; 1961 CLÁUDIA, Sacor Marítima, Lisboa; 1972 CLÁUDIA, interesses Portugueses, convertido em areeiro e passando a operar na extracção de areia ao largo da Ilha da Madeira, tendo vindo mais tarde para o rio Douro, zona de Entre Rios/Castelo de Paiva; 2010 ainda em serviço.


MIRA TERRA cruzando a barra do Douro de saída em 14/07/1966 /(c) Rui Amaro /.

MIRA TERRA (2) – 55,81m/562,31tb; 15/03/1957 entregue pela CUF – Companhia União Fabril (Estaleiro Naval da AGPL – Rocha), Lisboa, á Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa; 1967 transferido para o tráfego inter-lhas de Cabo verde; 25/07/1970, perdeu-se por encalhe no baixio do Galeão, Norte da Ilha do Maio, sem perda de vidas.

Navios gémeos: SILVA GOUVEIA (3) e MARIA CRISTINA (2).

Fonte: Jornal O COMÉRCIO DO PORTO, Lloyd’s Register of Shjpping.

Rui Amaro

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

REBOCADORES DO PORTO DE VIANA DO CASTELO

Os rebocadores MONTE DE SÃO BRÁS e MONTE XISTO, empresa Tinita, atracados ao cais comercial do porto de Viana do Castelo - Dezembro de 2009 / (c) José Rui Amaro /.

sábado, 12 de dezembro de 2009

O NAUFRÁGIO DO LUGRE-MOTOR PORTUGUÊS «S. JUDAS TADEU» Á VISTA DE SANTO ANTÓNIO DO ZAIRE

Lugre S. JUDAS TADEU /Imprensa diária- Cortesia Luis Filipe Morazzo/.

A 13.11.1966, uma Terça-feira, dia aziago para os supersticiosos, mas também para todos os tripulantes do lugre-motor Português S. JUDAS TADEU, supersticiosos ou não. O que se sabe é apenas isto: que a embarcação navegava normalmente, aprestando-se a tripulação para descansar um pouco, após o almoço, quando foi recebido na casa do leme o alarme, vindo da casa da máquina. O navio estava a fazer água, cada vez em maior volume. Eram, precisamente, 13h30 e o lugre navegava a cerca de 3 milhas da Ponta da Moita Seca, à vista de Santo António do Zaire. Todos correram aos seus postos. Procedeu-se a uma minuciosa busca nos porões, para se descobrir o rombo, para se localizar a rotura e tentar obturá-la. Mas tudo em vão. A água inundava, já, a casa das máquinas, dificultando todos os serviços. Procurou-se, então, impedir que a inundação progredisse perigosamente, pondo-se a funcionar quatro bombas para o escoamento. Pretendia-se, assim, equilibrar a entrada de água com o seu escoamento, possibilitando o salvamento pelo menos da tripulação.

Durante duas longas horas a tripulação se lançou à desesperada tarefa, contudo sem sucesso. Por isso que, cerca da 16h00, já o barco podia-se considerar, irremediavelmente perdido. Pouco depois, repercutia-se por todo o navio a ordem para o abandonar. E os tripulantes – cinco Europeus e cinco Africanos – correram para as baleeiras, afastando-se, penosamente do lugre prestes a submergir-se.

O S. JUDAS TADEU arrastado pela corrente, alcançara, entretanto o mar alto, escoltado pelas baleeiras dos náufragos esperançados, ainda, num milagre que lhes permitisse senão recuperar o navio, pelo menos voltar a bordo e salvar os seus modestos haveres. Pelas 21h00 o mar abria-se para dar sepultura ao navio e a essas esperanças da tripulação. Esta perdera tudo no naufrágio. E ainda se arriscara para salvar os documentos de bordo, um cão e um gatito ladino que mesmo em momento de tamanha aflição havia de brincar às escondidas. Depois foi a luta pela vida, por horas mortas da noite, nas frágeis baleeiras. Dezoito horas seguidas tiveram os náufragos, esgotados pelo esforço feito para tentarem salvar o seu velho lugre, de remar até alcançarem o porto de Cabinda, em cuja Delegação Marítima o capitão do lugre apresentou o seu protesto de mar. Foram horas de grande ansiedade as que viveu a tripulação, como, também, a boa gente de Santo António do Zaire que chegou a recear pela sorte dos náufragos, sabido que a costa é ali particularmente perigosa devido às fortes correntes marítimas.

O S. JUDAS TADEU pertencia à Sociedade Naval e Comercial de Lisboa e havia sido construído num dos estaleiros da Figueira da Foz em 1923. Durante largo tempo esteve adstrito à frota bacalhoeira com o nome JOÃO JOSÉ SEGUNDO. Saíra em 11 de Agosto de Lisboa para Matadi, com escala por Dacar e S. Tomé e regressava agora de Benguela e Lobito com um carregamento de sal e peixe seco, que deveria ser descarregado em Cabinda, por se destinar ao Congo Belga. De Cabinda seguiria para Lisboa transportando uma carga de madeiras daquele enclave.

Os seus tripulantes eram: Artur Belo de Morais, de 70 anos de idade, natural da freguesia das Mercês, Lisboa, que comandava o navio; José Fernando de Sousa, de 36 anos de idade, de Setúbal. 1º motorista; António da Cruz Pinto, de 43 anos de idade, de Ílhavo, 2º motorista; Francisco Alves de Castro, de 36 anos de idade, de Viana do Castelo, contra-mestre; António Ferreira Correia, de 56 anos de idade, de Ílhavo; marinheiro; António de Jesus Padre, de 17 anos de idade, de Ílhavo, moço de câmara. Além destes, havia mais cinco indivíduos Africanos colocados nos serviços auxiliares. O S. JUDAS TADEU fazia nos últimos tempos, apenas serviço de cabotagem ao longo da costa Angolana, principalmente entre o Lobito e Matadi, no Congo Belga, e anteriormente trafegava entre portos Portugueses, particularmente ao longo da costa continental.

S. JUDAS TADEU – 46,6m/262,5tb/9nós; 04.03.1923 lançado à água por António Maria Bolais Mónica, Figueira da Foz, como HÉRCULES, lugre bacalhoeiro à vela, por encomenda da Companhia Fomentadora Marítima Figueirense, Figueira da Foz; 1926 JOÃO JOSÉ, Costa & Cia., Figueira da Foz; 1933 JOÃO JOSÉ SEGUNDO, Sociedade de Pesca Luso Brasileira, Lda., Figueira da Foz, tendo-lhe sido instalado motor auxiliar e a partir de então, alterna as campanhas da pesca do bacalhau com o tráfego comercial até 1942, ano em que passa definitivamente para o comércio; 19__ S. JUDAS TADEU, Sociedade Naval e Comercial de Lisboa, Lisboa.

Fontes: Jornal O Comércio do Porto - J. Barrote Júnior; Lloyds Register of Shipping; Blogue Navios e Navegadores.

Rui Amaro