sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PESCA DO BACALHAU – REGRESSARAM DOS BANCOS DA TERRA NOVA OS LUGRES QUE ALI DEMORARAM TODA A CAMPANHA DE 1953


Neste gesto, simples mas envolvendo ternura, começou a nascer a saudade pelos entes queridos que vão à dura faina da pesca do bacalhau à linha no lugre-motor AVIZ, que se vê fundeado no estuário do Tejo, frente a Belém para a cerimónia religiosa da Bênção dos Bacalhoeiros, de 1953.


Dos Grandes Bancos da Terra Nova, já regressaram aos seus portos de armamento os navios de pesca à linha que ali se demoraram na safra do bacalhau, e naqueles "bancos" conseguiram carregar os porões após cinco meses de árduas e duras tarefas no mar.

Depois do HORTENSE, do GAZELA PRIMEIRO e do BRITES, demandou a barra de Aveiro, o lugre-motor LUISA RIBAU na sua primeira campanha, com um carregamento de 13.000 quintais de bacalhau frescal – a maior carga daquele ano capturada exclusivamente naquela zona pesqueira.

O primeiro navio do "dory" a chegar a Portugal, foi o AVIZ, vindo directamente dos mares dos gelos da Groenlândia, que demandou o porto de Leixões, a fim de desembarcar a sua companha de pescadores, e como vinha bastante "afogado" fundeou na bacia para aguardar melhor maré para passar a barra do Douro em segurança.


O lugre-motor LUISA RIBAU após o seu lançamento à água em 03/1953.


LUISA RIBAU – 50m/712,33tb; 16/0371953 entregue por João Bolais Mónica, Gafanha da Nazaré, porto de Aveiro, à Sociedade Gafanhense, Lda., Ilhavo; tendo sido o último lugre de velas e motor auxiliar construído em Portugal; 09/1953 na sua primeira campanha, quando em rota da Groenlândia para a Terra Nova suportou mar de violento ciclone, que acabou por lhe desfazer a ponte de comando, ficando com dificuldade de governo, valeu-lhe o navio-motor VILA DO CONDE, do Porto, que o comboiou até demandar o porto de São João da Terra Nova, onde lhe foram feitas reparações e instalada uma casa do leme provisória, tendo chegado a Aveiro com um péssimo aspecto; 23/08/1973 naufragou por incêndio nos Grandes Bancos da Terra Nova, tendo todos a bordo sido salvos por outros navios.


O lugre-motor AVIZ acompanhado da lancha de pilotos P12 no momento que se preparava para fundear na bacia do porto de Leixões.


AVIZ – 51m/523gt; 1939 entregue por Manuel Maria Bolais Mónica, Gafanha da Nazaré, porto de Aveiro, à Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., Porto; 01/1962 ficou celebre por ter suportado a grande cheia do rio Douro no meio do rio apenas com as amarras de proa, depois das amarrações estabelecidas para terra terem rebentado, devido à forte corrente, conquanto uma grande parte da navegação surta no rio, foi barra fora ou ficaram encalhadas nas margens, embora tenham sido recuperada, e levada para Leixões, ou mais tarde postas a flutuar; 21/09/1965 naufragou a 94mn a sul do porto de São João da Terra Nova, tendo todos a bordo sido salvos por outros navios.

Fontes: O Primeiro de Janeiro 08/1953; Miramar Ship Index

Gravuras: Imprensa diária Portuense –1953.

Rui Amaro


ATENÇÃO: Se houver alguém que se ache com direitos sobre as imagens postadas neste blogue, deve-o comunicar de imediato. a fim da(s) mesma(s) ser(em) retirada(s), o que será uma pena, contudo rogo a sua compreensão e autorização para a continuação da(s) mesma(s) em NAVIOS Á VISTA, o que muito se agradece.

ATTENTION. If there is anyone who thinks they have “copyrights” of any images/photos posted on this blog, should contact me immediately, in order I remove them, but will be sadness. However I appeal for your comprehension and authorizing the continuation of the same on NAVIOS Á VISTA, which will be very much appreciated.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

RECORDANDO A PERDA DO LUGRE BACALHOEIRO "ANA MARIA" NOS BANCOS DA TERRA NOVA NA CAMPANHA DE 1958

O lugre ANA MARIA em vésperas da despedida, vendo.se o barco das pinturas e subindo o rio de vela enfunada um rabão do Douro / autor desconhecido /.

OS LUGRES QUE SURGIRAM, DE REPENTE, DA NÉVOA DO ATLÂNTICO


Os lugres surgiram, de repente, da névoa do Atlântico, e luziram ao sol no claro em que também íamos navegando, a bordo de um veleiro Finlandês, em viagem da Austrália para Inglaterra, depois de havermos dobrado o Cabo Horn. Eram três lugres, navegando juntos. Ao princípio pensei que fossem grandes "yachts", empenhados nalguma regata oceânica, da Europa para a América.

Eram navios de três mastros e de cerca de cerca de trezentas toneladas. De linhas graciosas, vistos à distância pareciam de facto navios de recreio. Contudo não tardei em verificar que vinham demasiado carregados para serem "yachts".

Quando já mais próximos, cruzaram a nossa esteira, reparei que iam cheios de barquitos, pintados de vermelho e castanho, empilhados no convés, em rumas de seis botes de altura. Levavam imensa gente e em ambos os bordos tinham amarradas às enxárcias bóias de barris. Se bem que os convés fossem atravancados com aqueles botes pequenos e de boca aberta, não se viam salva-vidas nem turcos. Notei tudo com minúcia porque passaram uns atrás dos outros em coluna graciosa, singrando sem esforço e com elegância muito perto da nossa grande galera e para que lhe pudéssemos ler os nomes – MARIA DA GLÓRIA, NEPTUNO II, ARGUS. /in A CAMPANHA DO ARGUS, de Allan Villiers - Ed. 1951/.

Pois este ARGUS, da campanha de 1929, era nem mais nem menos do que o nosso ANA MARIA e foi o antecessor do actual ARGUS/POLYNESIA, que há pouco passou de novo a arvorar a bandeira verde-rubra e se encontra acostado à Gafanha da Nazaré, e a grande galera era a famosa GRACE HARWAR, que hasteava a cor branca, cruzada de azul, da Finlândia.


http://sailing-ships.oktett.net/11.html


A DESPEDIDA


A 17/04/1958 cruzava de saída a barra do Douro, já de velas desfraldadas e auxiliado pelo rebocador fluvial MERCÚRIO 2º, o nosso puro lugre à vela ANA MARIA, tão querido das zonas ribeirinhas do porto do rio Douro, e com os familiares dos tripulantes e pescadores, das margens junto da barra, acenando lenços na despedida, além de curiosos sempre presentes nestas ocasiões, máquinas fotográficas disparando para a posteridade.

Pois apesar de velhinho, o mais antigo navio da frota bacalhoeira, um produto dos estaleiros de Dundee, Escócia, de 1873 para o armador William Thomsom, que foi um dos fundadores da afamada The Ben Line Steamers, Ltd., de Leith, e que em 1875, preservando o nome de ARGUS, viera para Portugal pelas mãos da Casa Bensaúde, de Lisboa, e em 1941 fora trazido para Massarelos, adquirido pela firma Portuense Veloso, Pinheiro & Cia, Lda, que lhe alterou o nome para ANA MARIA, quem diria que na tarde daquela dia se fazia de rumo a noroeste, na sua derradeira travessia do Atlântico Norte, tendo naufragado a 07/09/1958, já no final da campanha, felizmente sem perda de vidas.


O lugre Ana Maria navega ao largo da barra do Douro, após ter largado o cabo de reboque do Mercúrio 2º e ter desembarcado o piloto em 17/04/1958 na sua derradeira campanha aos Bancos da Terra Nova / Imagem da noticia do diário O Primeiro de Janeiro / .


NOTICIA DO NAUFRÁGIO


Os navios de pesca á linha que pairam nos pesqueiros da Terra Nova têm sofrido duramente as contingências da procela. Nunca a frota bacalhoeira sofrera tão pesadas baixas em unidades de pesca como no decurso desta campanha. Dir-se-ia que este ano fora avassalado por um mau presságio. Mais uma notícia chegou a relatar sucintamente um novo naufrágio:

Nova Iorque, 8 - A tripulação de um lugre Português, em dificuldades no noroeste do Atlântico, foi recolhida por dois arrastões de nacionalidade Espanhola - informou a US Coast Guard.

Um S.O.S. do lugre à vela Português ANA MARIA foi transmitido na noite passada para a unidade de busca e salvamento da US Coast Guard desta cidade. Uma embarcação de pesca retransmitiu a mensagem, indicando que o lugre estava a afundar-se a 320 quilómetros a sueste do Cabo Race, na Terra Nova. As mensagens de rádio não indicavam a natureza das dificuldades em que se encontrava o lugre nem o número de tripulantes e pescadores – (R).


MAIS NOTICIAS SOBRE O AFUNDAMENTO DO VELHINHO LUGRE


A tripulação do lugre naufragado era oriunda dos centros piscatórios da Afurada, de Vila do Conde, da Gafanha da Nazaré e da Póvoa do Varzim. Em sequência do telegrama de Nova Iorque, a que se fez referência, a US Coast Guard mais tarde informou que os naufragados foram recolhidos a bordo de um arrastão Espanhol. Na continuação destas informações, fornecidas pela agência Reuter. O quartel-general de busca e salvamento da Royal Canadian Air Force (RCAF), em Halifax, na Nova Escócia, confirmou que 40 tripulantes e pescadores do lugre ANA MARIA foram levados pelo USCGC SPENCER (W36).


http://www.valtechdata.com/SPENCER2006/SpencerArt.htm

http://ww2db.com/ship_spec.php?ship_id=490


O lugre á vela, cujo registo foi indicado como sendo da praça do Porto, tinha 85 anos de existência, estava a arder e tinha aberto água em resultado do incêndio, segundo informou a RCAF. Um cutér da USCG mais tarde bombardeou e afundou o navio Português a fim de evitar que se tornasse um perigo para a navegação.

No Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau, foi recebida uma comunicação que confirma o afundamento do velho lugre, da praça do Porto, e que todo o seu lotamento de 40 homens estava a salvo. O Grémio está a tratar do seu repatriamento.

È o quarto lugre bacalhoeiro naufragado nos mares da Terra Nova no curto período de um mês. Aos atrasos das pescas acrescenta-se a perda de navios. O lugre ANA MARIA era o mais pequeno da frota bacalhoeira – o mais pequeno e o mais antigo, pois como atrás se disse fora construído pelos estaleiros de Dundee em 1873 para o armador William Thomson, que foi o fundador da The Ben Line Steamers, Ltd. (William Thomson & Co, Ltd.), de Leith. De airosa silhueta, dominada pela sua mastreação de duas alturas dera sempre provas da sua estabilidade e resistência ao mar. Era construído totalmente em madeira de carvalho.

O ANA MARIA zarpara do seu ancoradouro habitual de hibernação, no rio Douro, diante do lugar do cais de Massarelos, para uma viagem directa aos pesqueiros dos mares da Terra Nova. Navegava à vela. Durante decénios fizera esplêndidas campanhas à "Terra dos Bacalhaus". Pelo entardecer de 17 de Abril findo - data da sua partida para a "Faina Maior", os que viram a sua silhueta perder-se na linha do horizonte da imensidão do mar, caso do autor do blogue, mal diriam que daquela viagem não mais regressaria ao seu porto de armamento.

Navegava o ANA MARIA, desta vez debaixo das ordens do capitão Joaquim Agonia Vieira, de Vila do Conde. Ocupava o lugar de imediato o mais antigo homem do mar em serviço na frota bacalhoeira: O capitão José Fernandes Pereira Júnior, oriundo de Ilhavo, figura típica conhecida na gíria marítima pelo "Zé Lau". O velho lobo do mar há mais de 65 anos que sulca as águas do Atlântico. Na sua odisseia é mais um naufrágio que tem para contar… Coincidência curiosa: tanto o ANA MARIA como o seu piloto "Zé Lau" quase se igualavam na idade.


NOTAS


O lugre LOUSADO debaixo de mau tempo nos Grandes Bancos /Inverno na Terra Nova - Jerónimo Osório de Castro /


Questionavam-me há uns tempos porque razão o ANA MARIA e o PAÇOS DE BRANDÃO não limpavam nem pintavam o fundo, durante a hibernação no rio Douro, pois chegavam de mais uma campanha na Terra Nova, descarregavam o produto das suas capturas, e logo de seguida começavam por baixar os mastaréus e todo o poleame e de seguida iniciavam os consertos, pinturas e preparativos para a próxima campanha, e jamais se viu aqueles lugres subirem ao plano inclinado, docagem em dique seco ou realizarem querenagem, e chegada a hora de rumar para a Faina Maior, lá iam todos pintadinhos de branco sem que o fundo fosse limpo e pintado.

Parece-me que há bastantes anos os dois lugres, e possivelmente outros também, viram os seus fundos revestidos de cobre, e não mais foi necessário fazerem querena, o que até então era um procedimento usual.

Eu tenho uma vaga ideia de na minha infância ter visto um dos dois em querena, com uma enorme inclinação a um dos bordos, e parte lateral do fundo à vista, com espias amarradas à parte superior dos mastros e nos cabeços em terra, ou do lado do rio em ancorotes ou barcaças. O seu fundo estava a ser revestido de cobre.

E por falar disso, no mesmo ancoradouro do lugar do cais de Massarelos, em anos distantes, houve uma enorme tragédia, que atingiu calafates, pintores e carpinteiros navais, havendo feridos e mortos, devido aos cabos que prendiam o navio se terem partido, e naturalmente, o bojo foi atingir os infelizes.

Há um outro aspecto que gostava e muito agradecia, que alguém entendido nas pescas dos Grandes Bancos, do tempos daqueles dois lugres, me esclarecesse:

Usualmente quando havia previsão de um grande ciclone, a mundialmente conhecida "Portuguese White Fleet" suspendia e arribava ao porto de S. João da Terra Nova. Será que o ANA MARIA e o PAÇOS DE BRANDÃO, por falta de motor auxiliar e só se moverem com a ajuda do vento, permaneciam fundeados nos Bancos aguentando a borrasca ou também se dirigiam àquele bom porto de abrigo!?

Fontes: Jornal de Noticias; USCG.

Rui Amaro


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domingo, 16 de janeiro de 2011

O "ANA MARIA" – O ÚNICO LUGRE BACALHOEIRO Á VELA NA CAMPANHA DE 1957 E "MENINO QUERIDO" DA PRAÇA DO PORTO

O ANA MARIA em manobras de amarração à lingueta do Bicalho, Massarelos, quando da sua primeira campanha, 1941, pelo armamento da praça do Porto / foto de autor desconhecido - colecção F. Cabral /.


A 17/04/1957 saiu da barra do Douro o lugre ANA MARIA, um lugre bacalhoeiro que toda a gente conhecia, e ainda hoje lembrado, pois era um verdadeiro símbolo bastando dizer-se que era o único navio da pesca do bacalhau que não era equipado com motor auxiliar, navegando sempre à força do vento, o único "combustível" que "abastecia" o seu velame.

Quando o ANA MARIA regressava da sua faina, era mais do que certo que tinha um numeroso público a esperá-lo, constituído, não só pela família e amigos dos tripulantes e pescadores e pelos seus armadores, como também pelos amadores fotográficos, que ali iam levados pelo desejo de recolher a imagem do belo e alvinitente navio com as suas velas enfunadas, confundindo-se com uma enormíssima ave marinha.

Desde alguns dias que já havia noticias da largada do ANA MARIA dos mares do grandes bancos da Terra Nova – 21/03 – e pelos cálculos feitos já ele deveria ter chegado. No entanto como os ventos foram um pouco desfavoráveis, retardaram-lhe a viagem e só a 09/09 ele foi avistado a Noroeste da barra do Douro, como não poderia deixar de ser, de velas desfraldadas, e tendo o vento de feição, em pouco tempo estava à barra. Recebido o prático, e estabelecida a amarreta com o rebocador VANDOMA, e ferrado o pano, fez-se à barra.


O ANA MARIA demanda a barra do Douro a reboque do VANDOMA a 09/09/1957 / foto de Rui Amaro /.


O ANA MARIA foi acompanhado por terra enquanto subia o rio até à amarração, no lugar do cais das Pedras, Massarelos, por muita gente, que o fora aguardar á barra, e pelo rio seguido por bateiras do centro piscatório da Afurada, dado que da companha faziam parte pescadores daquela localidade Gaiense.

Depois das manobras de amarração, auxiliadas por uma lancha dos pilotos, da visita a bordo dos agentes da Sanidade Marítima, Policia Marítima e Policia Internacional, foi autorizado o desembarque dos tripulantes e pescadores, dando-se como sempre as cenas de franca alegria entre eles e as pessoas de família e amigos.

O ANA MARIA, "Menino Querido" da praça do Porto, que trazia de lotamento 38 homens dentre tripulantes e pescadores, era pertença dos armadores Veloso, Pinheiro & Cia. Lda., da Avenida dos Aliados e comandado pelo capitão Joaquim Agonia da Silva, de Vila do Conde, e tinha como piloto, o capitão José Fernandes Pereira, mais conhecido por "Zé Lau", um pequeno corpo mas grande na coragem para quem o mar não tem segredos e que dizia querer tanto ao ANA MARIA como se ele fosse mesmo seu, pois nele passara muitas campanhas e muitos anos de vida.

Da equipagem do ANA MARIA que trazia um carregamento completo, apenas adoeceu um moço, mas não fora coisa de cuidado.

Terminada a descarga no lugar do cais das Pedras, o "velho lugre" cambou, também auxiliado por um rebocador para o Quadro dos Navios Bacalhoeiros, Massarelos, afim de hibernar e iniciar os fabricos para a próxima campanha da "Faina Maior", sem que antes os pilotos não deixassem de ter o necessário cuidado de reforçar as suas amarras, tanto para o rio como para terra, afim do lugre suportar eventuais cheias no rio ou qualquer ciclone, como já ocorreu na década de 40 com ele e com os seus companheiros de ancoradouro, que garraram e andaram uns contra os outros, e o PAÇOS DE BRANDÃO afundou-se mesmo.

ANA MARIA – 50,86m/ 270,64tb/ 5.058 quintais/ 9 tripulantes/ 29 pescadores; 1873 construído pelos estaleiros Dundee Shipbuilding & Co., Dundee, como ARGUS para William Thomson, Dundee; 1885 ARGUS (1), Bensaúde & Cia, Lisboa, comprado pela importância de 13.500$000 reis; 1891 ARGUS (1) Parceria Geral de Pescarias, Lisboa, transferido para empresa parente, conservando sempre o mesmo nome; 1924 reconstruído, mas nunca chegou a ser equipado com motor auxiliar; 1941 ANA MARIA, Veloso, Pinheiro & Cia., Lda., Porto, comprado por 215.000$00, continuando na indústria da pesca do bacalhau; 08/09/1958 ANA MARIA, naufragou com água aberta, quando no termo da campanha se preparava para rumar à Pátria, contando a bonita idade de 85 anos, 73 dos quais sob as cores nacionais de Portugal e 18 ao serviço do armador Portuense, salvando-se toda a tripulação que fora recolhida por dois arrastões Espanhóis.

Consta que fora construído para "Royal Navy" como navio-escola denominado HMS ARGUS, nome muito utilizado pela Marinha de Guerra de Sua Majestade Britânica, contudo pelas minhas pesquisas não encontrei nada que o confirmasse. Agora poderá ser que tivesse sido fretado ao seu armador Escocês para essa função.

Fontes: Jornal de Noticias

Rui Amaro

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sábado, 15 de janeiro de 2011

O REGRESSO DO LUGRE "ANA MARIA" QUE TROUXERA A BORDO 14 NÁUFRAGOS DO LUGRE "PAÇOS DE BRANDÃO" ENTRE OS QUAIS UM RAPAZ DE 14 ANOS, CLANDESTINO


O ANA MARIA amarrado à lingueta do Bicalho, Massarelos, após a sua chegada de mais uma campanha nos Bancos da Terra Nova /Diário de Noticias /.


De regresso dos Bancos da Terra Nova, de onde zarpara precisamente haviam 15 dias com carregamento completo de bacalhau, e após uma singradura sem qualquer novidade, com bom tempo e vento de feição, entrou a 27/08/1951, cerca do meio-dia, no rio Douro, amarrando depois à lingueta do Bicalho, Massarelos, o puro lugre á vela de 3 mastros ANA MARIA, comandado pelo capitão José Gonçalves da Silva, de Ílhavo, e propriedade dos armadores Veloso Pinheiro & Cia., Lda., sedeados na praça do Porto.

A bordo vinham 14 dos náufragos – um dos quais clandestino, de 14 anos há poucos dias feitos! - do também puro lugre à vela de 3 mastros PAÇOS DE BRANDÃO, pertencente ao mesmo armador do ANA MARIA, que no passado, dia 3, conforme fora noticiado, se afundara na Terra Nova, quando andava na rude faina da pesca. Eram eles: João André Alão, de Ílhavo, capitão; José Manuel dos Santos Alves Nilo, de Portimão, piloto; José Sousa, contra-mestre; Domingos Gomes Ferreira Júnior, cozinheiro; Jaime da Silva Catarino, encarregado dos motores de serviços – todos de Ílhavo; os pescadores Alberto Gonçalves Ribeiro; José dos Santos Viana, e Manuel da Silva Sancadas, de Vila do Conde; Jesuino Martins e Adolfo Ferreira Arteiro, da Póvoa do Varzim; Eduardo dos Santos Coutinho, da Afurada; e João Nunes Pelicas, de Ílhavo; e o moço de câmara José Paulo Gomes Pena, de Ílhavo. Um total de 13 elementos da companha do PAÇOS DE BRANDÃO, que era composta de 32 tripulantes, incluindo o capitão. Faltando portanto ainda 19 homens, que vieram a bordo do JULIA 1º, onde foram recolhidos, e que se destinava a Lisboa, seu porto de armamento.


O PAÇOS DE BRANDÃO amarrado junto da lingueta do Bicalho, Massarelos, logo após a chegada de mais uma campanha nos bancos da Terra Nova / Jornal de Noticias /.


Juntamente com os 13 náufragos então, chegados, veio também um rapaz – um autêntico "lobo do mar" em embrião – chamava-se ele Adriano Neves da Silva, de 14 anos – feitos em 1 de Maio – e é um dos 9 filhos de Júlio de Sousa e de Iva de Jesus Neves, que lá estavam, á chegada do navio, na lingueta, presos de emoção, para receberem o filho pródigo… O pequeno, claro, entregue à autoridade competente, a PIDE, que iria resolver o seu caso de harmonia com as leis, não seguiu para sua casa, localizada ali numa rua junto do seu navio – mas agora já em terra firme, para sua tranquilidade. Nas instalações da PIDE fora interrogado se alguém o teria aliciado a embarcar clandestinamente no PAÇOS DE BRANDÃO, como não houvesse nada de interesse foi mandado em paz, e nem poderia ser de outra maneira.

O Adriano, que era de Massarelos, ali mesmo à borda de água, foi recebido como um "herói" pelos seus amigos e companheiros de escola e traquinices. Recepção triunfal! E ele – ao que nos garantiram, regressado muito mais homem, tanto no porte, como no físico – contou ao jornalista a sua odisseia:

Desde pequeno que ali, à beira-rio, onde brincava, assistia às partidas, e chegadas dos navios bacalhoeiros. E gostava "daquilo"! À noite, sonhava com o mar, vendo-se a comandar grandes navios!... E foi assim, a pouco e pouco, que no seu espírito se foi criando a iniciativa de embarcar clandestinamente – para a aventura…

Traçou os seus planos com todo o cuidado – e como alvo escolheu o PAÇOS DE BRANDÃO, que estava ali mais à terra, por bombordo do ANA MARIA. Então, na barafunda das despedidas foi muito sorrateiro (tão franzino era então que o pode fazer!) alojando-se numa "loca", uma espécie de pequeno armário à proa do lugre, onde se guardava carvão.

Só após alguns dias de viagem deram com ele – quase desfalecido por causa do enjoo.

"Está aqui um gato!" – foi a primeira exclamação do tripulante que o encontrou. Mas não era…

Gaiato sempre pronto para todos os serviços por mais duros que eles fossem: O pequeno Adriano, sempre disponível a ajudar, em pouco tempo ganhou a simpatia de cada um dos tripulantes do PAÇOS DE BRANDÃO. E assim foi indo, até que deu uma queda da verga da vela do traquete, fracturando um braço. Mas não chorou! Deixou-se tratar como um homem – ou melhor como nem todos os homens! E, curou-se, até que novamente ele pôs bem à prova a sua coragem e a sua valentia de autentico "lobo do mar". Foi quando do naufrágio do PAÇOS DE BRANDÃO. Quis ser dos últimos a abandonar o seu navio e ajudou um pescador que estava em risco de vida a abandonar o navio sinistrado, já sob violento incêndio – e só chorou (também à maneira dos marinheiros), quando o viu afundar-se!...


O PAÇOS DE BRANDÃO por terra do ANA MARIA, seguindo-se o AVIZ e o SENHORA DA SAÚDE amarrados no quadro do navios bacalhoeiros, Massarelos, local onde o ousado pequeno "lobo do mar" conseguiu embarcar clandestinamente / F. Cabral - Porto /.


Depois recolhido pelo ANA MARIA, foi entregue, de harmonia com as leis marítimas, ao capitão do porto, nos Mares da Terra Nova e Groenlândia, a bordo do GIL EANES, comandante Tavares de Almeida. Já então as suas façanhas se haviam tornado conhecidas, e o Adriano breve conquistava as simpatias da equipagem do famoso navio de apoio à frota. Seguindo nele desembarcou no porto Canadiano de Sidney, onde ao conhecer-se a sua aventura, o envolveram em exuberantes manifestações de carinho. Vestiram-no, deram-lhe muitos brinquedos e não faltavam famílias que queriam tomar conta dele!

Mas outro teria de ser o destino do Adriano, que foi depois embarcado no lugre ANA MARIA, que acabara de chegar, tendo sido apresentado às autoridades marítimas, que por certo, e se tal tivesse sido possível, não o deixariam de matricular na Escola dos Pescadores, o que não se concretizou.

Simpático, de modos resolutos, forte (bem diferente do que era antes da sua aventura) o Adriano Neves da Silva, envergando a indumentária característica do pescador, parecia um "velho lobo do mar", ao lado de uma das irmãs e entre o pai e a mãe, que carinhosamente, e com as lágrimas nos olhos queria ver o braço partido do seu menino---

O jornalista falando com alguns dos náufragos, todos foram unânime em afirmar que o Adriano fora um verdadeiro marinheiro, que soube enfrentar a odisseia por si vivida, sobretudo na ocasião do temporal que os apanhou quando se encontravam ancorados no pesqueiro denominado "Virgin Rocks". Foi um ciclone tremendo! Perdemos tudo, incluindo as roupas que vinham em 6 dóris que se voltaram. Valera-lhes a rapidez dos socorros, prestados pelos lugres ANA MARIA, MARIA FREDERICO, JÚLIA 1º, CRUZ DE MALTA e SÃO JACINTO. Uma hora mais tarde, e não haveria possibilidade para chegarmos a bordo de qualquer deles. Estaríamos irremediavelmente perdidos – afirmaram.

No momento do naufrágio, o PAÇOS DE BRANDÃO tinha já 3.200 quintais de bacalhau – ou seja o carregamento quase completo.

Depois de cumpridas as formalidades legais, os náufragos do PAÇOS DE BRANDÃO e a maior parte da companha do ANA MARIA juntaram-se aos seus familiares e amigos que de longe os haviam vindo esperar e abraçar e seguiram para as suas respectivas localidades, para um descanso de alguns dias, antes de retomaram as suas lides pesqueiras artesanais.

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/outros/domingo/as-confissoes-de-um-pirata

Não haja dúvida, que aqueles dois belíssimos lugres de madeira, "os meninos bonitos da praça do Porto", amarrados ali em Massarelos, no quadro dos navios bacalhoeiros, tão pertinho da margem, e ainda para mais navios à vela, e na altura da largada de ambos no mesmo dia, um atrás do outro, de velas enfunadas pela nortada fresca, rumando directamente aos pesqueiros do Noroeste do Atlântico, sem estarem presentes na cerimónia religiosa da Benção dos Bacalhoeiros, que todos os anos se realizava no estuário do Tejo, por Abril ou Maio, frente a Belém, onde marcavam presença os seus companheiros de hibernação no rio Douro, BISSAYA BARRETO (1), COMANDANTE TENREIRO (1), INFANTE DE SAGRES TERCEIRO, AVIZ, CONDESTÁVEL, SENHORA DA SAÚDE, COIMBRA, SÃO JACINTO e o SENHORA DO MAR, seduziam o rapazio ribeirinho, e eu que o diga, a tentar a aventura, como consta que em tempos recuados já ocorrera, pois sempre era uma ajudinha para o cozinheiro de bordo.

Fontes: Jornal de Noticias

Rui Amaro


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