quinta-feira, 26 de junho de 2008

« O REBOCADOR "VANDOMA" ex "ST-745" »

Uma certa manhã dos primeiros meses de 1949, com os meus 12 anos de idade, viajando de carro eléctrico da Foz do Douro para o Porto, a fim de me dirigir ao estabelecimento de ensino, que frequentava, já muito próximo de Massarelos, vislumbrei uma embarcação um pouco esquisita, casco bojudo e chaminé deveras dimensional, amarrada no conhecido lugar do Quadro dos Bacalhoeiros, margem direita do rio Douro, cujo seu aspecto nada se igualava aos rebocadores da época. Tal embarcação mais parecia uma unidade de outra qualquer armada, menos da Portuguesa, devido ao seu casco e estruturas se encontrarem pintados na sua totalidade de cinzento-escuro. À proa, nas amuras, e se bem me lembro, também na chaminé, distinguia-se a sua identificação e número ST-745, pintados de cor preta, que correspondia ao nome da embarcação.
Essa embarcação esquisita, que viera substituir o velhinho mas sempre relevante e popular rebocador TRITÃO, 36m/172tb, que já deveria ter ido para a reforma há bastantes anos, pois fora construído em Inglaterra em 1888, por encomenda do Governo Português e entregue à Junta Autónoma dos Portos do Norte – Douro/Leixões, actual APDL, era nem mais nem menos do que o actual rebocador VANDOMA, que acabara de chegar da Holanda, já com bandeira e tripulação Portuguesa, onde fora adquirido para servir de rebocador portuário nos portos do Douro e Leixões, particularmente neste último, além de prestar apoio à navegação em dificuldades ao largo da costa.
O VANDOMA ex ST-745, 26,68m/154,89tb, 690HP/1.250HP, fora construído em 1944 nos EUA pelo estaleiro Tampa and Marine Corp., Tampa. FL, de acordo com o projecto 327 e entregue à US ARMY CORPS para aumentar o esforço de material flutuante para fazer face à Segunda Guerra Mundial. Ainda no mesmo ano do seu lançamento á água foi enviado para o teatro de operações de guerra na Europa e fazendo parte do comboio naval NY-118, deixou a costa Leste dos EUA a 23 de Julho, alcançando o porto de Falmouth, Sudoeste de Inglaterra, a reboque do navio de desembarque LST-363, a 17 de Agosto, por conseguinte 25 dias de mar. Há quem diga que tomou parte no desembarque das forças aliadas nas costas da Normandia, célebre “D-Day”, nas manobras do posicionamento dos navios afundados, propositadamente junto às praias, e ainda dos módulos de concreto destinados a estabelecer molhes, ou seja um género de porto artificial.
Em 1949 foi vendido à Sociedade de Representações., Lda., Lisboa, ficando a pertencer à APDL – Administração dos Portos do Douro e Leixões, Porto, em 1950. Após os fabricos, julgo, totalmente realizados no ancoradouro de Massarelos e em Leixões, fez experiências de mar a 30/04/1949, demonstrando as suas excelentes potencialidades de manobra e marcha, já pintado com as cores da APDL, muito mais interessantes do que as actuais.
Década de 70 com a vinda de novos rebocadores foi entregue à JAPN – Junta Autónoma dos Portos do Norte, Viana do Castelo, a fim de substituir o rebocador RIO VEZ, entretanto tragicamente naufragado naquela barra minhota. Em 1983 tomou as cores alaranjadas da TINITA- Transportes e Reboques Marítimos SA, empresa de rebocagens sedeada em Viana do Castelo, continuando a servir aquele porto até 2005, e bem, devido ao facto de lhe ter sido instalado um propulsor do tipo "Schottel", à proa, pelo que ganhou melhor manobralidade e capacidade de tracção, o que lhe permitiu operar até tão tarde.
Perto do final do afretamento, a TINITA tornou a pintá-lo com as cores do seu antigo armador, a JAPN, casco preto e superstruturas de amarelo e branco, tendo sido entregue ao agora IPTM - Instituto Portuário dos Transportes Marítimos, delegação do Norte, entidade que substituiu a JAPN na administração do porto de Viana do Castelo. Como anteriormente na chaminé tinha as letras JAPN, que já não existe, optaram por manter a cruz de Cristo, simbolo da TINITA e que todas as unidades daquela empresa ostentam, e segundo parece, tem a ver com as preferências clubisticas de um dos fundadores daquela empresa de sucesso - o popular "Belenenses".
Actualmente, encontra-se atracado ao terminal de cargas rolantes (Ro-Ro) do porto comercial de Viana do Castelo, a aguardar desmantelamento para sucata, após cerca de 60 anos de bons e úteis serviços, contudo teve ainda a oportunidade de participar nas filmagens do "Assalto ao Santa Maria", parcialmente rodado no navio-hospital GIL EANNES. Para o efeito navegou pelos seus próprios meios, apenas com o impulsor de proa, para a doca comercial, recebendo o nome e porto de registo de ocasião, GIERIG - Curacao, e já que não ficará preservado como motivo museológico junto do GIL EANNES, pelo menos foi o melhor fim para uma tão rica e longa carreira, iniciada há 64 anos na sua vinda para a Europa, a fim de tomar parte no esforço de guerra Aliado para combater o Nazismo.

Em 1954, juntamente com o MONTALTO e o MERCÚRIO 2º, participou nas operações de reflutuação do navio-motor COLARES, encalhado à entrada da barra do Douro, que foram coroadas de êxito e ainda na tentativa de resgate da tripulação do vapor SILVER VALLEY, encalhado a 17/03/1963 no Cabeço daquela mesma barra, entre outras. Os seus gémeos de bandeira Portuguesa, mais aproximados, foram os rebocadores GUIA, porto de Macau, além do CATUMBELA e DANDE, governo de Angola e entre os estrangeiros existe o VERNICOS IRINI, da Turquia, cujo armador o ofertou a um museu maritimo daquele país.
Dentre várias operações de reboque de material flutuante de obras públicas, nomeadamente portuárias, colaborou em 1963, juntamente com outro rebocador da APDL, no reboque do pontão MARIETA que transportava os "cimbres" para construção da Ponte da Arrábida sobre o rio Douro.
No Verão de 1949, num passeio na ria de Aveiro, que realizei com meus Pais, na bateira da apanha do burrié e berbigão, um género de moliceiro, propriedade do nosso saudoso parente Manuel Galvão, entre o cais do Bico, Murtosa, e a barra de Aveiro, navegação que de principio foi feita à vara e quando o vento norte refrescou foi de vela enfunada à escota larga, até perto da barra e junto aos Estaleiros Navais de São Jacinto, a fim de se cozinhar e almoçarmos, atracou-se à rebeça de um dos três rebocadores de origem Americana, então, recentemente adquiridos, se bem que de menor deslocamento do que o VANDOMA, os quais se encontravam em finalização de fabricos. Eram eles, o MONTE GRANDE e o MONTALTO destinados à APDL, e ainda o RIO VEZ à JAPN, que entraram ao serviço em Março de 1950. No regresso à Murtosa, foi navegar à bolina, à escota curta, com paragem no Moranzel e na Torreira, com a água a emborcar na embarcação e vertedouro a despejá-la para a ria, além da “toste”, pá da borda, a ser lançada à água conforme o respectivo bordo. Da Torreira rumou-se à Béstida e daí com vento de feição, chegávamos ao cais do Bico, Murtosa, ao final da tarde, após um agradável e ventoso dia na laguna de Aveiro.
A frota de rebocadores da APDL em 1950, e após a imobilização do velho TRITÃO no seu primitivo ancoradouro do caneiro da Ínsua, rio Douro, ficou constituída pelos rebocadores VANDOMA, MONTE GRANDE, MONTALTO, e também o rebocador a fogo MIRA e de acordo com uma fonte recente, aquando da aquisição daqueles novos rebocadores, a APDL esteve para adquirir um outro de maiores dimensões e mais potente, também de origem Americana.
Rui Amaro
Fontes: Imprensa diária
Mr. Hugh Ware (Tugboats – Silverside & Mutiara)
Malheiro do Vale - Viana do Castelo

O rebocador "VANDOMA" com as cores da APDL, após os fabricos, procedendo em 30/04/1949 às experiências finais no rio Douro. / (c) Gravura de noticia de "O Primeiro de Janeiro"/.

O rebocador "VANDOMA", no porto de Leixões, auxiliando as manobras de um navio em 06/06/1960 /(c) Foto de Rui Amaro/
O rebocador "VANDOMA" demandando o porto de Leixões em 29/10/1967./(c) Foto de Rui Amaro/.
O rebocador "VANDOMA" na doca do porto de Viana do Castelo em 07/1985./(c) Foto de Rui Amaro/.

O rebocador "VANDOMA" acostado ao cais de cargas rolantes do porto de Viana do Castelo, aguardando o desmatelamento, em 2007./(c) Foto de Rui Amaro/.

O rebocador "VANDOMA" no porto de Viana do Castelo em 06/2008, ostentando o seu nome e porto de registo de ocasiãio, para a rodagem do filme "O Assalto ao Santa Maria"./(c) Foto gentilmente cedida pelo Amigo Malheiro do Vale/.

O rebocador "VANDOMA" no porto de Viana do Castelo em 06/2008, ostentando o seu nome e porto de registo de ocasiãio, para a rodagem do filme "O Assalto ao Santa Maria"./(c) Foto gentilmente cedida pelo Amigo Malheiro do Vale/.

Os novos rebocadores da APDL, da direita para a esquerda, "VANDOMA", "MONTE GRANDE" e o "MONTALTO" na doca nº 1 do porto de Leixões em 16/03/1950. /(C) gravura de noticia de "O Primeiro de Janeiro"/

O velho rebocador "TRITÃO", após a sua imobilização, amarrado no Caneiro da Insua, rio Douro, em 1949. /(c) Foto de F. Cabral/.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

« O BATELÃO-PONTÃO ALEMÃO "INGE" À DERIVA, ENCALHA NA RESTINGA DA FOZ DO CÁVADO »

Madrugada tempestuosa, navegava ao largo da costa Norte de Portugal, conduzido pelo rebocador Italiano IGLESIAS, o batelão/pontão Alemão INGE (referencias à popa INGE, SCHW-4 HAMBURG), com cerca de 70m, em rota de Hamburgo para a Líbia, quando a amarreta, que o ligava ao rebocador, devido ao mau tempo rebentou, ficando o INGE à deriva, sem luzes de navegação e como não possuía tripulação correu à mercê do mau tempo de Noroeste e desgovernado. por seu lado o rebocador tentou encontrar o rebocado, não tendo sido bem sucedido, o seu capitão alertou as autoridades marítimas Portuguesas, uma vez que a embarcação extraviada, tornava-se um enorme perigo para a navegação. Durante todo o dia seguinte, não tendo localizado o batelão/pontão, rumou ao porto de Peniche, a fim de se abrigar do temporal e aguardar eventuais notícias sobre o seu paradeiro, e ainda para lavrar na respectiva capitania o usual "Protesto de Mar".
Passados cerca de dois dias, 09/03/1975 foi o INGE avistado varado numa praia do lugar do Forcadinho, a sul da barra de Esposende, na restinga da foz do Cávado, diante da fatídica penedia localizada ao largo da costa, denominada de Cavalos de Fão, onde muitas embarcações se têm perdido. pelo pessoal em serviço ao farol de Esposende.
Já com o batelão varado na praia, subiram a bordo alguns pescadores locais, que conseguindo penetrar no seu interior, não encontraram viva alma e trataram de trazer para terra alguns objectos, entre os quais uma bóia de salvação, dois sofás e algumas caixas contendo lingotes de ferro, estes possivelmente servindo de lastro.
Note-se, que este tipo de embarcação, uma “work barge”, não possuia qualquer estrutura de importância relevante acima do convés, além de não vir lotada de tripulação. Apesar de encalhada e batida por ondulação de Noroeste, não foram detectadas quaisquer avarias de importância, salvo a borda da popa ligeiramente danificada, e muito possivelmente cruzou toda a penedia dos Cavalos de Fão sem que se detivesse encalhada, devido ao seu pouco calado de água.
Logo que foi dado o alerta deslocara-se para o local uma patrulha da GNR de Esposende, da Guarda Fiscal do posto de Ofir, Delegação Maritima e ainda os Bombeiros Voluntários de Esposende, com material de socorros a náufragos.
O rebocador IGLÉSIAS, IMO 7351006, 36m/365tb, construido em 1974 pelo Cantieri Navali Solimano, Savona; 25/10/1980 ELEANORA ONORATO; subsequente história ignorada: 13 tripulantes comandados pelo cap. Armando Spadola.
Alguns dias depois, foi o INGE retirado do local com o prestimoso auxílio de vários barcos de pesca locais, sendo conduzido até ao rebocador da APDL, que pairava ao largo, devido aos perigosos baixios ali existentes, que faziam perigar aquele rebocador. Passado o cabo de reboque foi o batelão/pontão trazido para o porto de Leixões, tendo ficado atracado a uma das pontes-cais do porto de pesca, e uma vez que o primeiro rebocador perdeu o contrato, ficou a aguardar um outro rebocador oceânico, também de nacionalidade italiana, a fim de o conduzir ao seu destino, tendo deixado o porto de Leixões alguns dias mais tarde.
Durante todo dia do encalhe e no dia da reflutuação, foram muitos os curiosos, como acontece em ocasiões destas, que se deslocaram ao local, a fim de presenciarem o inédito naufrágio, naquela zona costeira.
O INGE foi agenciado pela Vesselmar – Agencia de Navegação, Lda, grupo Garland, Laidley, da cidade do Porto e recordamo-nos do colega Manuel Spratley da Silva, que tomou a seu cargo este caso, em apenas um dia ter ido do Porto à Alfandega e à Capitania do porto de Viana do Castelo, assim como a Esposende mais de quatro vezes, devido às sempre exigentes burocracias.
Rui Amaro
Fonte: Imprensa Nacional
Desenho : Rui Amaro

« THE LOSS OF THE MOTOR-COASTER "PONTA DE SAGRES" »

On the 02/01/1967, due to engine breakdown and in dense fog, the Portuguese wooden motor-coaster PONTA DE SAGRES went aground on the rocks near the river Ued Sebou, Moulay Bouselham, about 40 miles north of Kenitra on the Moroccan Coast. Meanwhile, the local maritime authorities started searching the distress crew, after her skipper, Master Antonio Paulo, 56 years old, from Olhão, having sent a “Mayday” message, which was listen by Tanger Coasting Radio Station. The eight crewmembers were met and saved by local fishermen, about 3 miles of Moulay Bouselham, only on the next day, after a long walk on the sands.
Later the vessel, loaded with fertilisers and general cargo from Lisbon for Kenitra, broke in two and was considered a total constructive loss, as well as her cargo. The vessel was partly insured.
Some years before, the PONTA DE SAGRES was news in the press too, because she was in risk of being wrecked near the Azores, owing having made water, but fortunately she reached Ponta Delgada without further trouble.
The PONTA DE SAGRES was built by Mr. José de Lemos, Faro, in 1947, as a wooden two mast auxiliary schooner for Sociedade Algarvia de Navegação.,Lda, Faro. About three years before the vessel having been transferred to Messrs. Vieira Pita, Lda, Faro, and she was converted in a two holds coaster with a new 6 cylinder diesel engine of 400 HP. Later a new propeller was installed to increase her speed.
The PONTA DE SAGRES had the following particulars: Tonnages, gross 298,63; net 163,45 and LOA 41,73 metres. Her usual route was in the Portuguese coastal traffic and also Portugal/Morocco service with eventual trips to Azores. In her earlier days she made trips to some French ports of Biscay. She was a typical coaster vessel with the funnel ahead of the bridge in contrast with the usual Dutch type.
Meanwhile in 1968, her owners purchased from Secil-Cia. Geral de Cal e Cimento, Setubal, the motor-coaster SECIL, 47m/427gt, completed in 04/1938 by the De Haan & Oerlemans, Heusden, The Netherlands, being renamed DAVID NUNES, in order to replace the ill-fated PONTA DE SAGRES. The "DAVID NUNES" was deleted from LR in 1988.
Rui Amaro
Source: Oporto Press
PS – This text was partly published in the June 1967 “Marine News –World Ship Society” by Kapitein Jean M. Otten, master of Dutch motor-vessel GITANA with my collaboration.

The two masts auxilary schooner "PONTA DE SAGRES" in her earlier days. /Press image/.

The wooden motor-coaster "PONTA DE SAGRES" outbound river Douro, Oporto, with a shipment of dust coal. in the 60s./My photo/.

The motor-coaster "SECIL" inbound river Douro, loading bagged cement, 01-1960./My photo/.

The motor-coaster "DAVID NUNES" inbound river Douro, Oporto, loading bagged cement, on the 20-11-1977./My photo/.

terça-feira, 3 de junho de 2008

« A PROBLEMÁTICA BARRA DO RIO DOURO » - 8 -

« A. TEIXEIRA DA COSTA »
O FOTÓGRAFO AMADOR DA BARRA DO DOURO

O navio-motor inglês Palmelian, 83m/1.535tb, Ellerman Papayanni Lines, Liverpool, demanda a barra do Douro, riscando na vaga, década de 50. Este navio e os gémeos Darinian, Mercian, Crosbian e Lucian davam bastante balanço a ambos os bordos, por vezes em dia de mar na barra, pareciam que iam adornar.

Outro aspecto do Palmelian, já dentro da barra, passando diante do Castelo de S. João Baptista da Foz do Douro, vendo-se o mastro de sinais da Corporação de Pilotos da Barra.

O navio-motor inglês Mercian, 83m/1.517tb, Ellerman Papayanni Lines, Liverpool, deixando a barra do Douro, década de 50

O navio-motor alemão Lisboa, 77m/1.441tb, OPDR, Hamburgo, saindo a barra do Douro, sob o olhar do piloto da barra José Fernandes Amaro Júnior, década de 50.


O iate-motor português Sadino, 34m/193tb, Chaves & Mateus.,Lda., Setúbal, faz-se à barra do Douro, sob mar cavado, a 31/01/1960.

Mar de enxofria, vindo lá da linha do horizonte, invade a Rua da Praia, a pouca distância a norte da barra do Douro, década de 50.

A.Teixeira da Costa, profissional do ramo da pastelaria e confeitaria, cujo estabelecimento e residência se situavam, ali junto da barra do Douro, tinha como hobby a fotografia de amadorismo, pois a sua câmara estava sempre pronta a disparar para o que desse e viesse, particularmente em ocasiões de barra difícil, tendo deixado uma apreciável colecção de fotografias de vários cenários daquela barra, dentre as quais, aquelas aqui postadas mas também as da entrada do navio-motor Strabo, sob mar desfeito e ainda as da ocasião da tragédia do iate-motor Meteoro, que além de emotivas fotos, fez o instantâneo do preciso momento do seu afundamento. Aqui fica a minha homenagem àquele ilustre e saudoso fotógrafo amador da Foz do Douro.
Rui Amaro


quinta-feira, 29 de maio de 2008

« A PROBLEMÁTICA BARRA DO RIO DOURO » - 7 -

« O NAUFRÁGIO DO IATE-MOTOR METEORO »

O iate-motor Meteoro, precedido a pouca distância do navio-motor Caramulo, é atingido por um enorme andaço de mar, que o vai fazer adornar e afundar-se, atirando para as águas revoltas a maior parte da tripulação e o piloto da barra, e tudo levou a crer que os motoristas devem ter ido com o navio para o fundo do oceano. /(c) Imagem de A. Teixeira da Costa, publicada na noticia do JN de 17/01/1947/.

A 16/01/1947, pairavam fora da barra vários navios e outros estavam abrigados na bacia do porto de Leixões, dentre os quais o iate-motor Meteoro, 28,98m/130tb, que estivera no molhe Sul, a descarregar sal vindo de Setúbal.
Dado que a barra do Douro se encontrava impraticável para a saída da lancha de pilotos P4, todos os navios iriam ser abordados pela lancha P1 da secção de Leixões – era uma alternativa que a maior parte dos portos portugueses não possuía, o que lhes restringia o movimento marítimo em ocasiões de mar nas suas barras – pelo que os pilotos, manhã cedo, seguiram para Leça da Palmeira no carro eléctrico da linha 1, tendo antes recebido instruções do piloto-mor José Fernandes Tato, que em principio haveria movimento para os navios de maior porte e os dois iates-motor, que eram o Meteoro e um outro, que já não me recordo do respectivo nome, deveriam vir à barra e aguardar ordens.
Segundo me divulgou em tempos, o piloto Henrique Correia Hugo, que no carro eléctrico acompanhava o seu colega Pedro Reis da Luz, este ao passar diante da barra e observando o jeito da ondulação, murmurou dizendo, “levo o navio para junto da barra e quando surgir um liso, faço-me à barra” ao que o colega retorquindo, aconselhou-o a não proceder como tal, porque depois iria ter complicações graves, e teve-as graves e trágicas para ele e para mais seis, que perderam a vida, salvando-se apenas dois tripulantes, um pela lancha P1 e outro pelo salva-vidas Visconde de Lançada da estação do ISN da Foz do Douro. Verdadeira e incompreensível incúria!
Após a usual consulta dos pilotos, no cais dos Marégrafo, presidida pelo piloto-mor e verificando-se que a ondulação embora de andaço, não impedia a entrada dos navios de maior porte, cerca das 09h00, foi içado no mastro do cais do Marégrafo e do castelo da Foz, o grupo de bandeiras relativo ao calado de água de quatro navios de maior porte.
Três desses navios Portugueses, aproximaram-se da barra seguidos do Meteoro, tendo tomado a dianteira o vapor Outão, 41m/218tb, precedido do navio-motor Rui Alberto, 48m/474tb, que passaram a barra sem grandes percalços, e logo a seguir vem de entrada o navio-motor Caramulo, 46m/340tb, todos carregados com cimento ensacado, o qual ainda a uma certa distancia foi envolvido por forte ondulação, que não lhe causara qualquer contrariedade.
O malogrado piloto deve ter olhado para noroeste, lá para as Longas e vendo que se ia dar um liso e desobedenço às ordens do piloto-mor faz-se à barra, tomando a vez do petroleiro Penteola, 53m/544tb, que já vinha a navegar para a barra e acabou por desandar para fora, ainda com o Caramulo, ali mesmo à sua proa e que muito possivelmente lhe tolheria os movimentos. O Meteoro vinha em lastro, portanto presa fácil da ondulação, e a cerca de uns quatrocentos metros começa a suportar a forte maresia traiçoeira, aliás já não havia hipótese de desandar para fora, e atingido por um enorme andaço de mar, correndo na vaga acaba por adornar sobre bombordo e submerge nas águas daquele mar maldito, vendo-se o piloto e os tripulantes de convés a debaterem-se com a maresia, desaparecendo um aqui outro ali.

 O CARAMULO continua a demandar a barra e pela sua popa o METEORO acabava de submergir, e instantaneamente dava-se novo liso de mar. / imagem de A. Teixeira da Costa /.

Gritos lancinantes se ouviram em terra, naquele local, que – tantas vezes - tem sido teatro de tragédias semelhantes. Um deles nadava para a barra mas sentindo que a corrente do rio lhe era desfavorável, teve a inteligência de se deixar ir ao sabor da corrente, nadando para o largo, acabando por ser resgatado pela lancha P1 timonada pelo cabo-piloto Aires Pereira Franco e pelo piloto Eurico Pereira Franco, cunhados do piloto Pedro Reis da Luz. Um outro segue o piloto, este de compleição forte, que conhecedor nato da área, nada na direcção do molhe de Felgueiras, infortunadamente recebe uma pancada de um qualquer destroço e quando está perto do referido molhe bate com a cabeça numas pedras, ficando em dificuldades. O outro naufrago foi resgatado pelo salva-vidas Visconde de Lançada, da Foz do Douro, sob as ordens do seu patrão José Bilé. As lanchas P4 e a P2 timonadas, respectivamente pelo sota-piloto-mor Manuel de Oliveira Alegre e pelo motorista Joaquim da Fonseca (Quim do Amaro). O salva-vidas Gonçalo Dias, da Afurada, também compareceu na barra, além dos rebocadores fluviais Mercúrio 2º e Deodato e de Leixões veio o Vouga 1º. Várias corporações de bombeiros do Porto e Matosinhos acorreram com o seu material de socorros a náufragos e ambulâncias.
Em dado momento, Fernando da Silva Marques (Pacharra), um jovem local de 19 anos, vendo o piloto Pedro Reis da Luz a desfalecer, não hesita, salta para águas revoltas e nada célere em seu socorro, alheio a todos os perigos que o ameaçavam. As vagas altas como montanhas faziam medo. Munido de uma corda, instruído e auxiliado do paredão pelo velho lobo do mar José Teixeira da Silva (Zé Relojoeiro), possuidor de um palmarés de enorme número de salvamentos e muito entendido nestas lides e ainda pelo ex marinheiro Ilídio da Costa Pinto, além de outros locais, conseguiu trazer o infeliz prático da barra até às escadas de leste do molhe de Felgueiras, Uma ambulância levou-o inanimado para o Hospital de Misericórdia, onde já chegou sem vida.
Pedro Reis da Luz, 50 anos de idade, casado, prático muito competente à 22 anos, fora protagonista de vários salvamentos naquela maldita barra, onde veio a perecer, pelo seu arriscado e desnecessário arrojo. A tripulação era na sua maioria Algarvia, dois deles naturais de Ílhavo e um de V.N. Milfontes. Um jovem da praia da Aguda veio no navio a convite do motorista, seu cunhado, e acabou por perder a vida.
Eu e minha mãe, vivendo aqui junto da barra do Douro, ficamos na maior das aflições, visto constar que era o meu pai, o piloto José Fernandes Amaro Júnior, que conduzia o Meteoro, felizmente estava a bordo de um outro iate-motor, o pequeno Guida, que estava no rio a aguardar ordens para largar, acabando por não sair.
O Meteoro, que fora construído pelo estaleiro Rijkswerf, Holanda, em 1907 para o tráfego comercial, pertencia à Sociedade de Transportes Marítimos Judith, Lda, Porto, que o empregava no tráfego nacional costeiro, com eventuais idas a Marrocos e Gibraltar, a qual também fora proprietária dos iates-motor Judith 1º, Cumpridor e mais tarde do Vianense. Havia sido adquirido, tempos antes, ao velejador Português António Herédia, que o utilizava como iate de recreio sob o nome de Nereida e tivera como seu capitão, João dos Santos Redondo, piloto da barra do Douro e Leixões.
Rui Amaro
Fontes: Imprensa Diária
Meu testemunho visual

PS - Lamento a qualidade da imagem, que foi copiada de uma fotocopia da noticia do JN.
Parece incrível, eu aqui tão perto do local do naufrágio e da terra do autor da imagem e por mais que procure não consigo uma reprodução em condições.
Alguém que tenha fotos do naufrágio e que me possa dispensar, ficarei imensamente grato.