sexta-feira, 13 de Maio de 2011

BATELÃO "NAZARÉ" EX NAU "PORTUGAL"

O batelão NAZARÉ conduzido de braço dado pelo rebocador OCEANIA

A Nau PORTUGAL foi construída para figurar na Exposição do Mundo Português, em 1940. A iniciativa da sua construção e a direcção geral dos trabalhos devem-se ao artista Leitão de Barros, sendo os estudos arqueológicos necessários para a sua reconstituição da autoria de Martins Barata; ao comandante Quirino da Fonseca competiam os cálculos para que a nau pudesse navegar, mas não os chegou a fazer pois entretanto morreu. A construção foi efectuada nos estaleiros Mónica, de Mestre Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, no concelho de Ilhavo, um dos estaleiros mais célebres na arte da construção naval em madeira.
As suas principais dimensões e características eram as seguintes: Comprimento entre perpendiculares 42,2m; Boca máxima na linha de água, carregada 11,4m; Pontal contado do fundo da querena recta ao vaus do pavimento superior 7,5m; calados: avante 3,12m, à ré 4,52m; mastros 3; canhões 48.
Bela e ricamente decorada, destinava-se a servir para exposição de produtos Portugueses, viajando por vários países, particularmente o Brasil.
Foi lançada água em 7 de Julho de 1940, tendo imediatamente adornado para estibordo, afundando-se parcialmente na presença dos projeccionistas, construtores, individualidades oficiais e milhares de pessoas que assistiam à festa que sempre acompanha o lançamento à água de um navio.
Como se explica este acidente? Segundo as conclusões do eng. Sá Nogueira, ao tempo administrador-geral do Porto de Lisboa, encarregado do salvamento da nau, tal facto deve-se a defeitos de construção, alheios no entanto a Mestre Mónica. Na exposição que fez à Ordem dos Engenheiros relatando o que se tinha passado com a nau PORTUGAL, dizia: Reatando o fio das considerações encetadas neste capitulo direi que, além de um plano geométrico ou de formas que serviu para a construção da nau, nenhum outro elemento logrei obter. (…)
«Cálculos de querenas direitas e inclinadas, de robustez do navio de lançamento à água, enfim tudo que pudesse servir para ajuizar da bondade do navio e do que lhe aconteceu ao abandonar a carreira, nada veio à minha mão. (…)
«Curvas de deslocamentos, de abcissas e de ordenadas do centro de querena, de metacentros e de raios metacêntricos transversais e longitudinais de deslocamentos por centímetro de imersão, diagrama de estabilidade, posição do centro de gravidade do navio, etc., são elementos não vistos por mim. (…)
«Porque se tratava de reprodução, com modificações não julgadas de substância, de tipo experimentado, entendeu-se olvidando-se a influência de imponderáveis, que tais elementos eram de dispensar, e deste modo nem a Direcção de Marinha Mercante, entidade oficial competente e única em matéria de construção naval mercante, foi ouvida. (…)

 Nau PORTUGAL

«Esqueceu-se, sem intenção é certo, que seria estupidez mas esqueceu-se de recorrer ao engenheiro naval para o estudo da nau (…) e do esquecimento resultou um acontecimento triste, que é uma lição, mas lição só para casos futuros, que o da nau, esse é facto consumado.»
Mais adiante, depois de se referir aos estudos que foi possível efectuar apesar dos elementos escassos, dizia que «a estabilidade transversal do navio era tal que o seu emborcamento era certo».
Segundo o mais tarde, proprietário dos Estaleiros Mónica - Arménio Bolais Mónica - , seu pai teve a intuição de que algo estava errado na construção da nau, dizendo-o por repetidas vezes aos responsáveis pelo projecto, não tendo sido ouvido. No dia do «bota-abaixo» pediu inclusivamente ao bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, que a benzeu e visitou interiormente, que não embarcasse na nau, pois ela se viraria ao tocar a água… E virou-se.
Depois de erguida e devidamente reparada, veio para Lisboa, atracando no dia 19 no cais da Rocha do Conde de Óbidos; em 2 de Setembro entrou na doca de Belém, finalmente integrada na Exposição do Mundo Português.
Não terminaram porém aqui os desaires por que passou a nau; o ciclone que em 17 de Fevereiro de 1941 varreu o País encarregou-se de a fazer adornar novamente, quebrando, então os mastros.
Desistiu-se de prosseguir nos esforços para a salvar e foi vendida à Companhia Colonial de Navegação que a converteu em 1942 no batelão costeiro NAZARÉ para transportes ao longo da costa continental e aparentemente a reconstrução foi da responsabilidade do construtor naval Manuel Maria Bolais Mónica, da Gafanha da Nazaré.
NAZARÉ – cff 45m/ cpp 42,57/ boca 11,48m/ pontal 7,92m/ 750,84tb/ 727,14tl/ casco madeira/ tripulação 6.
Passados cerca de 10 anos foi novamente vendido e desmantelado em Xabregas, ou seja em 1952.
Recordo-me de na minha infância de ver o batelão de carga NAZARÉ, frequentemente a cruzar a barra do Douro rebocado pelos rebocadores OCEANIA ou NAUTICUS, este ex MARS 2º da firma Garland, Laidley, do Porto, que também conduziam os outros quatro batelões da Companhia Colonial de Navegação, JAMOR, OTA, MASSAMÁ e RESTELO, construídos em aço, que anteriormente pertenceram à firma Portuense GARLAND, LAIDLEY.
  

Fontes: O Século Ilustrado, Lista de Navios Portugueses.
Gravuras: O Século Ilustrado
Rui Amaro

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6 comentários:

Anónimo disse...

Sou unico neto e bisneto de Armenio bolais monica e Manuel Maria Bolais Monica.
Grato pela sua homenagem.Foi meu avo que ergueu a nau apos os engenheiros se renderem à sua sabedoria. Ainda me lembro do meu avo construir os barcos, nos estaleiros monica, em frente à casa dos meus pais.Se me quizer contactar, armenio_anastaci0@hotmail.com.

Rui Amaro disse...

Amigo Arménio Anastácio
Pois é verdade o seu saudoso avô foi um SENHOR na construção naval em madeira, nomeadamente de navios bacalhoeiros, aliás também todos os Mónicas que lhe seguiram as pisadas.
No lançamento à água da nau PORTUGAL, a prática superou a teoria, e o percalço previsto pelo seu avô aconteceu. Houve uma outra nau, a S. VICENTE, um pouco parecida com a PORTUGAL, também construída pelos Mónicas na Gafanha da Nazaré na década de 60, nau essa que ficou em águas de bacalhau, e apodreceu no Mar da Palha, estuário do Tejo, julgo por falta de financiamento ou patrocínio.
Eu, embora aqui da Foz do Douro, mas desde tenra idade muito interessado nas actividades marítimas, talvez por meu pai ser piloto da barra, sempre ouvia falar dos construtores navais da Gafanha da Nazaré, os Mónicas, que também construíram uma lancha, a P-10, para os pilotos do Douro e Leixões em 1952. Agora com a vinda da fibra de vidro e da metálica/alumínio resta-nos os competentes estaleiros de Vila do Conde, entre um ou outro mais.
Aqui no Rio Douro, na década de 50, existiam cerca de 12 estaleiros, pois hoje só existe um, e esse que já o quiseram retirar para lugar inadequado, praticamente só se dedica à construção e reparação de barcos rabelos turísticos.
Abraço
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro

pmónica disse...

Caro Rui Amaro,
Quero felicitá-lo por ter divulgado a verdadeira história das circunstâncias que envolveram o acidente do adorno da Nau Portugal aquando do seu "bota-a-baixo" e que, claramente, desresponsabiliza o meu bisavô, Manuel Maria Bolais Mónica.
Guardo na memória os serões e as discussões em casa dos meus avós em torno desta questão e das afirmações que a minha avó, filha do Mestre Mónica, proferia em favor do pai, "...o meu pai tinha a 4.ª classe, mas ao ver o projecto afirmou que a Nau iria adornar mal tocasse na água e correu a informar os engenheiros (...) impediu que o Bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, embarcasse na Nau, pois sabia que ela iria adornar (...)". Apesar das discussões em torno deste acidente, os meus avós nunca me esclareceram as verdadeiras causas e o resultado do inquérito, persistindo as minhas dúvidas quanto aos factos. O filme de Leitão de Barros sobre a Nau Portugal ( http://www.youtube.com/watch?v=qxobYCIiwUo ), deixa, também, em aberto os motivos do acidente e até tenta de alguma forma responsabilizar o Mestre Mónica pelo acidente ao afirmar que, "não foram tomadas providências". Neste contexto, o seu texto esclarece de forma inequívoca os factos e livra de qualquer responsabilidade o meu bisavô deste triste acidente que abalou profundamente e durante 3 gerações, a minha família. Pelo seu esclarecimento, o meu muito obrigado.

Um Abraço,
Paulo Mónica (paulomonika@gmail.com)

Rui Amaro disse...

Caro Paulo
É um enorme prazer receber comentários dos descendentes dos conceituados construtores navais Mónicas, e não sei o que possa acrescentar à minha resposta ao comentário do amigo Américo Anastácio, que certamente é seu familiar.
Olhe, houve e sempre haverá "engenhocas" e "sabichões" mas aqueles que não têm canudos universitários mas possuem o canudo da tarimba e da pratica a trabalhar no duro, esses sim é que sabem do assunto e conseguem resolver problemas complicados e chamar atenção para evitar consequências desastrosas!
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro

Jogos de Carros disse...

Que a construção naval volte a ser a glória que já foi!

Abraços a todos do jogos gratis

Rui Amaro disse...

Caro
Era "bonzissimo"!
Pior é novata construção naval pouco qualificada de certos países Asiáticos de mão de obra escrava.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro