quinta-feira, 8 de outubro de 2009

NAVIO VIANENSE



O VIANENSE na ocasião do bota-abaixo, 15/09/1943


Com os meus cerca de sete anos de idade, indo eu pela mão de meu pai, o piloto da barra José Fernandes Amaro Júnior, ali junto à barra, ao dique da Meia-Laranja, e olhando para os lados do mar, vi aproximar-se um interessante navio que vinha em lastro, apesar de pintado de negro, que aproveitando a brisa de Nordeste, enfunava as suas velas e recebido o prático Aristides Pereira Ramalheira e ferrado o pano demandou a barra do Douro em boa marcha.

Como apaixonado de barcos, que sempre o fui, questionei o meu pai acerca daquele navio de três mastros com mastaréus, que ostentava pintado no seu costado, além da bandeira de Portugal as palavras “Vianense” e “Portugal” em letras garrafais, entre duas listas brancas a toda a sua extensão, que assinalavam a sua neutralidade, uma vez que estávamos em finais de 1943, em pleno período de conflito mundial, tendo me dito que era o lugre VIANENSE, que vindo do estaleiro em Viana do Castelo, onde fora construído, vinha ao Douro carregar carvão em pó para o porto de Setúbal.

Chegado a casa, e com a mania dos barquinhos, não perdi tempo e de um pequeno pedaço de palmeira e umas aparas de cortiça, apareceu em pouco tempo, pintado e tudo, um modelo tosco do lugre-motor VIANENSE.

Muitas vezes aquele lugre, que foi por muitos anos capitaneado por mestre Cachim Júnior (Rufino), da Ribeira de Viana, foi pilotado por meu pai, tendo num certo dia de mar na barra, sofrido um acidente quando logo após ter saltado para bordo, e ainda fora da casa do leme, sido levado de roldão pelo convés fora, devido a uma volta de mar que atravessou o navio de borda a borda, felizmente sem danos físicos de maior, apenas uma valente encharcadela.


O constructor naval José Ferreira Maiato, 15/09/1943


VIANENSE – 32,37m/162,33tb; 15/09/1943 lançado à água pelo estaleiro de José Ferreira Maiato, lugar do Cabedelo, Viana do Castelo, por encomenda do armador João Cândido Rodrigues Maduro, Viana do Castelo, que o colocou no tráfego costeiro internacional (NCI), particularmente entre os portos de Setúbal, Lisboa, Porto/Leixões e Viana do Castelo, transportando cimento ensacado, sal e carvão a granel. A 13/02/1948 foi comprado pela Sociedade de Transportes Marítimos Judite, Lda., Porto, para tomar o lugar do iate-motor METEORO, que se perdeu na barra do Douro a 16/01/1947.


O VIANENSE na carreira do estaleiro do Cabedelo, Viana do Castelo, 15/09/1943


--/04/1964 durante a viagem do Douro para Setúbal sofreu uma violenta explosão na casa da máquina, tendo prosseguido a viagem até Setúbal, onde descarregou o seu carregamento de carvão, regressando depois ao Porto, entrando a barra do Douro em 04/05/1964 a reboque do GOLFINHO, a fim de ser reparado.

Durante os muitos anos em que foi propriedade daquele armador do Porto, sofreu várias conversões, passando por lugre (3 mastros), iate (2 mastros) e lanchão (1 mastro), tendo a sua tonelagem sido alterada para 169,66tb.

Não possuo dados da sua história subsequente, mas se não estou em erro, parece-me que em finais da década de 70 foi vendido para o Mar Vermelho para ser utilizado em cruzeiros turísticos.


O lugre VIANENSE na carreira do estaleiro do Cabedelo, Viana do Castelo


O iate-motor VIANENSE amarrado junto das instalções da Secil, rio Douro, aguarda lugar no cais, década de 60


O iate-motor VIANENSE sai em lastro do porto de Leixões de rumo ao rio Douro, década de 60


O lanchão-motor VIANENSE demanda a barra do Douro em 12/03/1971


Fotos ©: Rui Amaro e colecção de João José Teixeira Passos.

Rui Amaro

5 comentários:

JOSÉ MODESTO disse...

Amigo vamos começar a pensar no almoço do SHIPPING.
Esta mensagem vai ser postada em todos os blogues na nossa área.

Temos que nos encontrar, temos que marcar um almoço de confraternização, as nossas esposas estarão presentes,(opcional) afinal elas aturam-nos todos os dias e o nosso tempo livre na blogosfera elas estão sempre presentes.

Vamos começar a pensar nisto.

Saudações Marítimas
José Modesto

José Castro disse...

Caro Sr. Amaro se não me engano este barco transportava sal para Viana nos meus tempos de rapaz,vivi também na rua aonde morava o Mestre Rufino e conheço um Sr. que quando o encontrar me certificarei pois creio que ele também fez parte da tripulação do barco Vianense.
Saudações
José Castro

Rui Amaro disse...

Caro José Castro
Como todos os navios do tráfego costeiro, tais como o MINHOTO, NAVEGANTE 1º, SANTA MADALENA, EDUARDO XISTO, etc., o VIANENSE não fugia à regra, e esporadicamente ia ao porto de Viana do Castelo descarregar sal ou cimento e outros até carregavam madeira de pinho (pranchas para a construção civil e tabuinha para caixaria) para Marrocos e no retorno traziam fosfatos para Setúbal ou Lisboa, e a propósito o meu sogro, já falecido há alguns anos, que residia em Brandara, Ponte de Lima, contava-me que levavam as pranchas de madeira e toros de pinho, estes para escoramento nas minas, para embarque no porto de Viana do Castelo, formando um género de jangada, as pranchas atadas até ao máximo, e lá iam Lima abaixo, á vara ou a remo até atracarem ao navio que as ia carregar, aliás esta forma de transporte era comum em outras partes do mundo. O regresso a Ponte de Lima era grátis, a “calcantes”. Era assim naqueles tempos! Viana do Castelo, nomeadamente a Ribeira de Viana, sempre forneceu marítimos para a Marinha Mercante, que é o seu caso, conforme tive oportunidade de verificar nos seus dois excelentes Blogues, pois Mestre Cachim Júnior (Rufino), que na altura residia aqui na marginal ribeirinha de V.N, de Gaia, e que eu em criança conheci, quando viajando de comboio com meus pais, íamos visitar um cunhado dele e ex camarada da tropa de meu pai, que por acaso também era mestre costeiro, José Cadilha (Zé Palouca), que se não estou em erro morava na Rua do Loureiro, julgo que era assim o nome da rua, e caso curioso, o meu filho técnico de electrónica, por vezes vai ao porto de Viana do Castelo, tratar da manutenção das telecomunicações, e enquanto eu o esperava na portaria, entrei à conversa com um grupo de indivíduos ali juntos, e conversa disto e daquilo, um deles era genro de mestre Zé Cadilha.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro – Foz do Douro

octávio disse...

O meu pai, foi motorista do Vianense. Alguém se lembra? Octávio do Nascimento. Grato.

BELMIRO CARLOS PEREI RUBIM disse...

eu fui moço do vianense com o mesre rufino e depois com o mestre serra