domingo, 26 de junho de 2011

PAQUETE PORTUGUÊS "IMPÉRIO" - 1948/74


 
IMPÉRIO / postal de arte do armador assinado por Gordon Ellis /

O paquete Português IMPÉRIO, passageiros e carga/ Imo 5159698/ 161,9m/ 13.185,72tb/ 7.758,63tl/ 11.230 m3/ 17nós/ 2 hélices/  2 grupos de turbinas, construídos em 1948 por John Brown & Co., Ltd. / 2 caldeiras para 30 K/cm2 de pressão/ 13.200 cavalos / 19 -17 nós/  Passageiros - 18 em classe de luxo, 101 em primeira classe, 156 em segunda, 118 em terceira e 406 em terceira suplementar, no total de 799 passageiros/ tripulantes 164; 27/12/1947 laçado á agua pelo estaleiro John Brown & Co., Ltd., Clydebank, Glasgow;  16/06/1948  registado na Capitania do porto de Lisboa sob o número H362; 17/06/1948 entregue pelo estaleiro acima, à Companhia Colonial de Navegação, Lisboa, que o empregou na sua carreira para os territórios Portugueses de África, nomeadamente de Angola e Moçambique, realizou uma ou outra viagem ao Brasil, e uma viagem turística às ilhas Atlânticas e nas décadas de 60/70 foi fretado pelo Governo Português como transporte de tropas e equipamento militar para Moçambique, tendo numa dessas viagens, mais propriamente a 09/01/1970, sob as ordens do Cdte Oscar Guimarães, sofrido um rombo na casa das máquinas, que originou enorme entrada de água, que acabou por inundar e paralisar as máquinas, e como tal a vida quotidiana a bordo ficou insuportável, quando aquele paquete se encontrava a quatro dias de viagem e a 400mn de Cabo Verde, mais propriamente a 150mn a sul de Dakar.
Segundo consta aquele rombo foi provocado por rebentamento de um engenho explosivo colocado a bordo antes da partida de Lisboa, provavelmente por elementos de movimentos independentistas, entretanto, enquanto se encontrava à deriva, foi assistido por outros navios, que navegavam na área, entre os quais, os Portugueses TRANSFRIO e ALMEIRIM, e mais tarde por uma fragata da Armada Nacional. Chegado um rebocador de nacionalidade Grega, da Tsavliris, foi por este rebocado para o porto do Mindelo, no arquipélago de Cabo Verde, onde arribou passados cerca de seis dias, com o pessoal a bordo em desespero, particularmente a tropa, que dias depois seguiu para Moçambique no paquete NIASSA. O paquete acidentado regressou a Lisboa rebocado pelo salvadego Holandês JACOB VAN HEEMSKERCK, da NV. Bureau Wijsmuller, de Ijmuiden, e daí dias mais tarde seguiu para os estaleiros de Glasgow para reparações finais; pelos seus próprios meios.


JACOB VAN HEEMSKERCK / postal do armador /.
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A 25/10/1966 entrava em Leixões como "navio presidencial" transportando desde Lisboa, um dos poucos estadistas nacionais e marinheiro, que à época conduzia a pasta da Marinha, fez Portugal regressar ao mar, com o célebre despacho nº 100, de 16/08/1945, que deu um rejuvenescimento à então, já envelhecida Marinha de Comércio, que foi iniciado com o BENGUELA em 1946 e concluído com o NIASSA em 1955, o Alm. Américo Tomás, Presidente da Republica, que veio presidir à inauguração das obras portuárias, a doca nº 2, a ponte móvel e o viaduto, ambos destinados à  ligação de Matosinhos a Leça da Palmeira; 29/03/1974 chegava a Kaohsiung para desmantelamento pelo sucateiro Chu Shun Hwa Steel & Iron Co., Ltd.



 Dois aspectos do paquete IMPÉRIO, como "navio presidencial" em Leixões a 25/10/1966 / Foto superior - (c) Foto Mar - Leixões, colecção Nuno Bartolomeu; Foto inferior - autor Rui Amaro /.
O IMPÉRIO só começou a escalar o porto de Leixões, se não estou em erro, a partir de finais da década de 50, assim como o seu irmão PÁTRIA, e os dois gémeos ANGOLA e MOÇAMBIQUE, da Companhia Nacional de Navegação, talvez devido à fragilidade dos rebocadores locais, ou porque os navios deixaram de realizar a manobra de rotação dentro da doca nº1, mas sim na Bacia, se bem que o PÁTRIA e o ANGOLA escalaram Leixões nas suas viagens inaugurais e de apresentação, respectivamente em 25/01/1948 e 12/01/1949, mas para isso deslocaram-se a Leixões os rebocadores dos respectivos armadores MONSANTO e o AVEIRO, a fim de prestarem assistência nas manobras de rotação. As cargas destinadas a Leixões eram trazidas de Lisboa, primitivamente pelo BUZI e mais tarde pelo PUNGUE, que no regresso levavam as cargas de embarque a serem baldeadas para o PÁTRIA e para o IMPÉRIO em Lisboa.


 O paquete PÁTRIA saindo do Leixões em 12/12/1965, dia ameaçador de chuva / autor Rui Amaro /.

 Recordo-me da largada do PÁTRIA, atracado no topo oeste da doca nº1 – norte, com uma enorme assistência de curiosos, em 26/01/1948, um Domingo chuvoso e de temporal desfeito de sudoeste, conduzido pelo piloto Elísio da Silva Pereira, que foi desembarcar a Lisboa, auxiliado pelos rebocadores MONSANTO e pelo velhinho e cansado TRITÃO, este da APDL. Os cabos à proa rebentavam perigosamente, e o TRITÃO à proa lá ia aguentando o "monstro", estando o MONSANTO à popa.
Fontes: Lloyd´s Register of Shipping; Navios Mercantes Portugueses; Imprensa diária.
Rui Amaro

17 comentários:

Anónimo disse...

Boas recordações ao ler este interessantíssimo blog.Alguem se recorda do nome do salvadego grego?

Rui Amaro disse...

O salvadego Grego que se mostrava na imagem do link, infelismente agora retirado da Internet, apenas poderei esclaRecer que o seu nome começa por NISO ----- , da Tsavliris, do Pireu. e a segunda palavra não me recordo.
SaudaçÕes maritimo-entusiasticas
Rui Amaro - blogue NAVIOS Á VISTA

Anónimo disse...

acho que foi o Nisos Mykonos de 3500hp.e que era de origem inglesa tal como o Nisos Zakintos que via há 40 anos atras estacionado nos Açores ou o Skiatos que fora o antigo Cintra da S.Geral

Rui Amaro disse...

Confrontando a foto do link com uma foto do rebocador HMS EXPERT da Royal Navy, classe NIMBLE, tudo leva a crer que se tratava do salvadego NISOS MYKONOS, que quando adquirido pela Tsavliris, do Pireu, sofreu uma reconstrução que lhe deu um aspecto mais moderno e mais possante e foi demolido em 1972.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro

LUIS MIGUEL CORREIA disse...

Foi o NISSOS MYKONNOS, que quer dizer ILHA DE MIKONOS. Tenho uma fotografia publicada no livro PAQUETES PORTUGUESES, de 1992.

Rui Amaro disse...

Obrigado pela confirmação do NISOS MYKONOS
Saudações maritimo-entusiasticas
Rui Amaro

Rui Amaro disse...

Caro Luís Miguel Correia
Muito possivelmente já teria conhecimento, mas aí vai a informação extensiva a outros leitores.
Ao pesquisar mais sobre o paquete IMPÉRIO, nos recortes de jornais que possuo, descobri que o rebocador que o conduziu de Cabo Verde para Lisboa foi o Holandês JACOB VAN HEEMSKERCK, cujo transito foi de 12 dias e 15 horas, quando o IMPÉRIO pelo seus próprios meios levaria cerca de 5 dias.
Um dos primeiros navios a chegar à área foi o Português TRANSFRIO no dia seguinte ao acidente, e só no dia 11 chegava o ALMEIRIM, segundo informava o comandante Óscar Guimarães do navio, à comunicação social em Lisboa.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro

Anónimo disse...

o Imperio foi minha freguesia e concelho de nascimento, 20/04/55, noOceano Indico.

Anónimo disse...

Este navio não tinha mesmo sorte ! Já em 1960, numa viagem normal entre Portugal e Moçambique, algures na costa ocidental de África teve outro incidente. Desta vez foi um fogo num dos porões, à volta dos quais e contrariamente ao que já se disse po aí, havia as camaratas de 3ª classe elementar. Estavamos em pleno mar e a confusão e o pánico foram muito grandes. Tentaram apagar o fogo com água,taparam as chaminés que faziam a ventilação dos porões, evacuaram para os convés os passageiros que iam na 3ª classe elementar (grande parte deles iam para o Colonato do Limpopo, em Moçambique) e fomos aportar a Dakar.Queimaram-se muitos haveres dos passageiros e no caso dos meus pais foram-se 2 malas.Nunca me esquecerei por dois motivos principais: muitas pessoas a caírem para o chão desmaiadas, com medo, e de ter ficado um cheiro nauseabundo no navio dadas as condições em que ficaram a viver o resto da viagem os passageiros que estavam nos convés.

Rui Amaro disse...

Caro Anónimo
grato pela sua achega sobre o saudoso paquete IMPERIO.
Saudaões maritimo-entusiásticas
Rui Amaro

Amílcar Rosário disse...

Que saudade ao ler estas histórias. Recordo o problema do Imperio com o tal rombo no casco. A coisa não foi assim muito comentada obviamente por razões políticas. Conheci mais tarde o Comandante Óscar Guimarães (Óscar Fraústo de Oliveira Guimarães) quando ele comandava o Uige. Penso que saíu do Império a seguir ao problema e foi para o Uige. Tanto quanto me recordo ele deve ter ido por volta de 1966. Como eu estava no Bar da 1ª classe, ainda lhe servi uns bons Whiskys, e ele que não gostava nada. Ainda hoje o recordo como um excelente homem

Rui Amaro disse...

Caro Amílcar Rosário
Grato pela chega sobre o paquete IMPÉRIO e o seu comandante.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro

Carvapai disse...

Fui tripulante (praticante de comissario) do Imperio de Setembro de 1971 ate aos fins de Agosto de 1973 e durante todo esse periodo o commandante do mesmo foi o Óscar Guimarães. Do Imperio sai para o Uige cujo comandante na altura era o Manacas. Entre os dois comandantes nao havia comparacao. Duarante as tres viagens que fiz com o Manacas praticamente que nunca troquei uma palavra com o mesmo.

Com o Oscar sinceramente que nao sei quantas vezes e que comi e bebi conjuntamente com ele e varios outros na mess situada por debaixo da ponte.

Uma noite o Oscar, quica sentindo-se abandonado pois a tripulacao com quem ele se costumava socializar tinha sido sustituida, ao ver-me a entrar para o meu camarote apos o encerramento do bar chamou-me para perguntar se eu tinha algum whisky e tendo eu dito que sim ficamos os dois sentados dentro do mesmo a beber e a conversar ate as 6 da manha.

Rui Amaro disse...

Amigo Carvapai
Obrigado por comentar o seu episódio
que é mais uma achega para a história do paquete IMPÉRIO e da grandiosa Marinha Mercante de Portugal, que o era.
Saudações marítimo-entusiásticas
Rui Amaro

Oscar Guimaraes disse...

Boa tarde

sou o neto do comandante Oscar frausto de Oliveira Guimarães, e tenho o mesmo nome do meu avô Oscar de oliveira Guimarães

muito grato por se lembrarem do grande homem que foi o meu avô.

abraço forte a todos.

Albino Ferreira disse...

Tenho saudades deste barco pois foi nele que viajei para Angola partindo de Lisboa em 18 de Janeiro e cheguei a Luanda do dia 28 do mesmo mês no ano de 1966 era um bom barco em relação ao no que vim

Um abraço para todos os ex tropas que viajaram nele

Albino Ferreira

Bat Caç 1875

Anónimo disse...

Caro Sr. Anónimo

Grata pelas suas descrições.
Gostaria de saber se se lembra da data dessa viagem? Pois penso de ter feito a mesma viagem segundo as descrições dos meus pais.

Melhores saudações
Filomena Mendes